terça-feira, 14 de abril de 2009

MINHA JUVENTUDE

Na minha juventude, houve ruas perigosas e invernos longos de fugas ao vazio do escuro silencioso. Na minha juventude, quando caía a noite, dava-se corda a todas as iminentes esperanças, que mais cedo do que tarde haviam de eclodir. Na minha juventude, eu dançava sozinha de frente ao espelho.
Mas agora que o dia não raiou, e a profecia não se cumpriu, a minha juventude olha-me, sisuda, e diz-me: "O que é que fizeste das nossas horas? o que fizeste das nossas horas preciosas, que agora sinto soprar um vento frio?"

Na minha juventude, houve lindos inícios, de corações que tremem ao primeiro olhar, de calafrios e incertezas no fim do corredor que nunca chega. Na minha juventude, houve interstícios, houve longos voos planados em estado ébrio, houve aterragens de emergência que nunca causaram danos permanentes.
Mas agora que a emoção acabou, e que o avião caiu, a minha juventude olha-me, severa, e diz-me: "O que é que fizeste das nossas noites? o que fizeste das nossas noites de aventura, que agora o tempo retoma o seu passo?"

Na minha juventude, houve uma prece, houve uma expectativa de proeza a dizer ou realizar, houve uma promessa de gênero de mistério. Na minha juventude, houve uma flor que eu colhi no mais tenro dos seus anos, que eu arranquei pra mim no seu mais pleno temor.
Mas agora que o talento não bastou, e que a rosa desfaleceu, a minha juventude olha-me, cruel, e diz-me: "É hora de partir: eu regresso à minha estrela e deixo-te a ti o fim da história".

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