quinta-feira, 18 de junho de 2009

SEMPRE CHOVE

Sempre chove ao anoitecer nesta época. Mas hoje ele reparou especialmente; é que a lua, cercada pelas nuvens escuras, num céu que ela clareava timidamente por detrás delas, estava tão grande, tão redonda, como fazia tempo que ele não via. Ou que não reparava. E ele ficou acordado até a esta hora só pra ver este espetáculo de luzes. 

Há algum tempo que ele caminha só. Tão múltiplo como eterno já foi, ele olha o horizonte de braços baixos, sem se importar muito. Tem manchas de nicotina nos olhos — frutos duma tristeza torturosa há muito extinta, mas que ainda queima — e nada mais a resguardar. Nem mesmo o seu orgulho.

Ele já não fala muito de si estes dias. Invés, pensa muito nas coisas que esqueceu de fazer e em todo o tempo em que pôde fazê-las. Hoje ele entende que, de fato, não há nada de especial em nenhuma rosa — e se por acaso o que faz uma ou outra especial é o tempo que se lhe dedica, ele já não espera ter o tempo de descobrir.

Consumido, gasto, provado, batalhado, tremido, temido e temerário, ele chora como um menino, desaba e cai prostrado, dirigindo ao céu uma prece. Ele nunca pediu nada, e não é agora que pede. A sua glória a si lhe basta. E se a alguém mais não, é só porque nunca estenderam a mão pra alcançá-la; mas só as preces verbalizadas são atendidas. E às vezes nem estas.

Se bons sonhos são certos, maus sonhos são errados. E ele dorme dum sonho como o ouro.


SEMPRE CHOVE

Sempre chove ao amanhecer nesta época. Mas hoje ele reparou especialmente; é que um facho horizontal de sol rasgou o céu escuro e, no fim de si, no fim de tudo, ele só pode ter comunhão com luz do nascente e com as coisas destes dias. E ele acordou a esta hora só pra ver este espetáculo de luzes. 

Há algum tempo que ele não acredita em utopias hollywoodianas. Tão desejante e desejável como já foi, não mais ele há de sufocar em beijos ou afogar num regozijo confuso. Ele não necessita mais calafrios na espinha, nem dor romântica, nem revolver de estômago, nem coração acelerado para saber do que gosta (e, na sua escala axiológica latina, este é o primeiro e o único estágio de amor).

Mas agora ele parece ter medo de viver a vida que lhe faz tanta falta. É mesmo bem duro baixar a guarda, mas ele nunca é tarde demais para retirar a armadura que o tempo enrijeceu. É o caminho do Destino e o seu senso de humor que se aguça dia a dia.

Homem de dores, ele se contentará com sofrer só, conquanto durem os seus sofrimentos; está bem satisfeito que a abominação e o opróbrio devam carregar a memória dele. Outrora o seu anelo acomodava-se em sonhos de virtude, de fama, de júbilo. Outrora ele desejou — em vão — encontrar seres que, perdoando a sua forma externa, o amariam pelas excelentes qualidades que ele era capaz de demonstrar. Ele era nutrido por altos pensamentos de honra e devoção. Mas ele está só. E não faremos dele caso algum.

Se dormem os santos como os anjos, ele não despertará, se o Senhor o sustentar. E ele dorme dum sono como a morte.

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