sexta-feira, 11 de setembro de 2009

À MESA

      “De onde és?”, perguntou-lhe o senhor simpático. “Não sou daqui”, o viajante respondeu ― e tinha razão. Não julgava pertencer àquele lugar, nem a lugar nenhum que seja. Sentia-se assim deslocado há tanto tempo que já não sabia como era nutrir laços. Apesar de que, de fato, não se lembrava de já ter ali estado, naquela mesa, comendo daquele pão, bebendo daquela bebida, mesmo que soubesse que já sim. Tentou recordar-se de como havia começado aquela conversa, mas não conseguiu: como todos os começos de coisas grandiosas, fora demasiado sutil pra se dar a perceber como tal. “E já vais partir?”, continuou a interrogar o seu interlocutor, que tanto parecia saber das respostas às questões que fazia, que dar-lhes resposta era quase como um exercício de retórica. “Tenho pessoas a ver, coisas a fazer”, redarguiu o viajante em tom reticente, quando bem poderia ajuntar “E viceversa”. “Falas as línguas?”, insistiu o velho, sorrindo. Ao que, após refletir um pouco, ele disse: “Mal falo uma”, e nisso talvez não tenha mentido ― falar todas é o que há de mais próximo a não falar nenhuma. “É importante aprender”, retomou o senhor, em voz mais baixa. E o jovem não soube bem se nisso ele se referia às línguas. Ficou em silêncio. Relanceou então ao relógio, afastou discretamente a cadeira pra trás e perguntou quanto custara. O velho estendeu a mão, tocou a dele e sorriu paternalmente: “Eu ofereço”. O rapaz olhou-o profundamente. Havia esquecido a sensação do toque humano. E, por redescobrir-lho agora, de maneira tão singela, por ter-lhe feito companhia nessa refeição tão solitária como há tanto eram as suas, por ensinar-lhe tão mais do que nunca ninguém se daria conta, ao senhor o viajante dirigiu a palavra mais sincera de toda a sua vida: “Obrigado”.

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