segunda-feira, 28 de setembro de 2009

PELAS CORTINAS

      Anoitece, e ela caminha lenta e reticente quarto adentro, o qual se torna pouco a pouco mais e mais escuro, mas nem por isso ela procura o interruptor. Ela não quer acender a luz ainda. Como de costume, abre um pouquinho a cortina e lança uma olhadela enrubescida janela afora, que o procura. Pontual como em todos os ocasos desde que ela primeiro deu pela sua passagem, o jovem anda rua abaixo, alto como sempre, belo como nunca, passeando o cãozinho simpático. Ela sempre o admirou assim, à distância, a cada noitinha, detrás das cortinas ― salvo pelo sorrateiro olhinho brilhante. Nunca teve a coragem de lhe expor os sentimentos, de lhe falar de sonhos, de lhe contar a vida que imaginou ― e imagina! ― ao lado dele. Uma tênue voz de menino ao longe soa no seu torpor onírico. Desperta-se. Da cozinha, o neto chama a avó que venha jantar. Ela passa as mãos pelo cabelo tão alvo como neve, ajeita-o no totó que traz à nuca, fecha a cortina e retira-se do quarto já todo escuro, lenta e reticente.

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