domingo, 18 de outubro de 2009

ENFIM AMOR BOM

― Porque mesmo o amor sentido na alma, se não se arma mas é tomado de calores, vem pois a cair, ou então opera desordenadamente. Oh, o amor tem diversas propriedades. Primeiro a alma por ele se enternece, depois cai enferma... Mas depois percebe o calor verdadeiro do amor divino e grita, e lamenta-se, faz-se pedra colocada na fornalha pra se desfazer em cal, e crepita, lambida pela chama.
― E este é amor bom?
Ubertino acariciou-me a cabeça e, como o olhasse, vi que tinha os olhos cintilantes de lágrimas:
― Sim, isto é enfim amor bom.
Tirou a sua mão das minhas costas:
― Mas como é difícil ― ajuntou ― como é difícil distingui-lo do outro. E às vezes, quando a tua alma é tentada pelo demónio, sentes-te como o homem pendurado pelo pescoço que, atadas as mãos no dorso e vendados os olhos, colga na forca e ainda vive, sem nenhum remédio, a girar no vazio...

sábado, 17 de outubro de 2009

SOB A LUZ DO VAPOR DE SÓDIO

      Diante do café que esfriava ao vento, girando a caneta cujo fundo prendiam os seus lábios e cuja ponta se apertava entre o indicador e o polegar, ele considerava o mundo em derredor, relutantemente aprisionado na escuridão tensa dos últimos momentos antes da alvorada. Os olhos não se voltavam às linhas ainda em branco do caderninho diante de si. Talvez nem sequer nelas pensasse. Detrás, acendiam-se as luzes do balcão. Ao lado, o empregado trazia fora as cadeiras e limpava as mesas. De frente, os travestis prontos pra findar o turno equilibravam sobre os tacões os passos lentos em direção aos táxis. No passeio oposto, partia também o pedinte ― com o qual ele já desenvolvera uma relação baseada em quartéis de dinheiro diários ― sob a luz do vapor de sódio que no muro distinguia um brasão rememorando glórias dum passado cada vez menos reconhecível. Ao longe, já se podia ouvir o som do transporte subterrâneo iniciando a sua longa e repetitiva jornada, quando ele finalmente escrevinhou umas frases acerca de armas e barões...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

DE NENHURES E DE LONGE

      Um céu de tanta névoa que nem parece ser dia, pendurado numa árvore ou no traço das nuvens escuras, traz o som de nenhures e de longe, ecoando de excelso galho cinzento, balançado tão acima, por sobre espessa e ainda assim gramínea terra lamacenta. Mais ao alto, um firmamento asperamente talhado ― um muro, erguido para vacas que já lá não estão ― dividindo erva de erva, aparentemente sem fim, corre horizontes infinitos adentro, saltitante, saliente, fiando-se em diminutos seres, apenas visíveis, escondidos na sombra do desalinho vestindo o chão, onde sabem que ninguém os vê.

      E o que resta de noite é um suspiro de vento silente, não diferindo senão no claro e monocromo céu.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

NO HORIZONTE

      Todas as mesas estão ocupadas, a maioria em saborear o pão, especialidade da casa. Entre dois sorvos de Johnny, o olhar perdido pra muito além dos pilares, cariátides sem rostos decaindo da maresia duma Anfitrite sem ventos, ele tinha sobre a bochecha a mão, cujo pulso sustinha o queixo, apoiado o cotovelo ao lado do copo, e voltava-se pro horizonte rubicundo. Ouviu baterem à sólida madeira da porta. "Partiremos ao raiar o dia", disse-lhe a cabeça que surgiu. "Sim, capitão." Na proa, a luz apagou-se sem mais delongas.

sábado, 3 de outubro de 2009

SÍMPLICES ATOS

      A porta está aberta. Uma mulher está sentada à mesa, mas ela não come nem bebe. Ela respira. Um homem está em pé à porta, mas ele não entra nem sai. Ele olha. Ela não. Eles não falam. Um menino está no quarto, na cama, mas ele não dorme. Ele escuta. O homem e a mulher não falam. Ele olha. Ela respira. O homem sai. A mulher chora.