sábado, 17 de outubro de 2009

SOB A LUZ DO VAPOR DE SÓDIO

      Diante do café que esfriava ao vento, girando a caneta cujo fundo prendiam os seus lábios e cuja ponta se apertava entre o indicador e o polegar, ele considerava o mundo em derredor, relutantemente aprisionado na escuridão tensa dos últimos momentos antes da alvorada. Os olhos não se voltavam às linhas ainda em branco do caderninho diante de si. Talvez nem sequer nelas pensasse. Detrás, acendiam-se as luzes do balcão. Ao lado, o empregado trazia fora as cadeiras e limpava as mesas. De frente, os travestis prontos pra findar o turno equilibravam sobre os tacões os passos lentos em direção aos táxis. No passeio oposto, partia também o pedinte ― com o qual ele já desenvolvera uma relação baseada em quartéis de dinheiro diários ― sob a luz do vapor de sódio que no muro distinguia um brasão rememorando glórias dum passado cada vez menos reconhecível. Ao longe, já se podia ouvir o som do transporte subterrâneo iniciando a sua longa e repetitiva jornada, quando ele finalmente escrevinhou umas frases acerca de armas e barões...

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