sábado, 14 de novembro de 2009

QUANDO ELE REPOUSOU

      Quando ele repousou de novo a cabeça sobre as minhas coxas, afaguei-lhe o cabelo com os meus dedos ainda sujos. No ar, ainda recendiam fortes os gerânios. Eu não sabia bem o que fazer. Eu queria dizer que não se preocupasse, que aquilo passaria, que tudo ia ficar bem, mas eu não conseguia. Então eu só fiquei lá, com ele no regaço, passando-lhe a mão pelo cabelo, tentando com isso expressar o perdão que eu queria pedir por uma culpa que não era minha. O sofá era duro e rangia um bocadinho cada vez que ele respirava muito fundo. Diante de nós, a janela mostrava a cidade velha, cuja silhueta apenas visível cintilava em gotículas de luz na escuridão que pesava na sala. Ela brilhava nas nossas caras, nas nossas feridas, nas nossas cicatrizes, na nossa dor tão antiga como viva. Era pouca luz, mas tão deslumbrante que bem podia ser uma fagulha do paraíso, uma centelha de salvação, e eu e ele podíamos ser anjos desgarrados que finalmente vão ser resgatados de volta pro júbilo de uma Jerusalém eterna. Mas não era, e não éramos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

SEGUNDO CONSTA,

      Eram cerca de nove e meia e fazia um pouco de frio quando ele saiu, deixando a porta destrancada. Saiu um tanto apressado, ao que se conta, sem olhar pra trás. De ar um tanto alheio, não saudou ninguém no caminho, passou ligeiro, cruzou as ruas sem olhar à esquerda e à direita, como desde sempre lhe convenceram ser seguro. Conta-se que ele correu então até à estação mais próxima, que é mais ou menos a umas duas quadras de distância. Lá não esperou muito, apanhou o primeiro que passou, parece que nem olhou o destino. Dizem que ele entrou por uma das portas de trás e que não pagou o bilhete. Ele não foi visto no trabalho nesse dia, nem ninguém soube justificar a sua ausência quando perguntaram por ele. Escurecera sem que dele se tivesse notícia. Era já a hora do jantar, mais ou menos umas dez pras sete, quando ele inesperadamente chegou a casa, com um largo sorriso no rosto. E dizem que ele parecia nunca ter estado tão feliz..