sábado, 14 de novembro de 2009

QUANDO ELE REPOUSOU

      Quando ele repousou de novo a cabeça sobre as minhas coxas, afaguei-lhe o cabelo com os meus dedos ainda sujos. No ar, ainda recendiam fortes os gerânios. Eu não sabia bem o que fazer. Eu queria dizer que não se preocupasse, que aquilo passaria, que tudo ia ficar bem, mas eu não conseguia. Então eu só fiquei lá, com ele no regaço, passando-lhe a mão pelo cabelo, tentando com isso expressar o perdão que eu queria pedir por uma culpa que não era minha. O sofá era duro e rangia um bocadinho cada vez que ele respirava muito fundo. Diante de nós, a janela mostrava a cidade velha, cuja silhueta apenas visível cintilava em gotículas de luz na escuridão que pesava na sala. Ela brilhava nas nossas caras, nas nossas feridas, nas nossas cicatrizes, na nossa dor tão antiga como viva. Era pouca luz, mas tão deslumbrante que bem podia ser uma fagulha do paraíso, uma centelha de salvação, e eu e ele podíamos ser anjos desgarrados que finalmente vão ser resgatados de volta pro júbilo de uma Jerusalém eterna. Mas não era, e não éramos.

Sem comentários: