sábado, 25 de dezembro de 2010

A ORIGEM DO AMOR

Quando a Terra era chata e as nuvens eram de chama e as montanhas galgavam ao céu (e mais alto), por todo lado um povo havia que tinha dois pares de braços e dois pares de pernas, e tinham duas faces que olhavam em direções opostas de um mesmo grande cabeção, de modo que dava pra ler enquanto falavam. Eram todos irmãos e nada sabiam do amor. Isso foi antes da origem do amor.

E havia três sexos sim: um que era como dois homens num só (chamavam-se os filhos do sol), outro (eram as filhas da terra) como duas meninas em uma, e ainda uns (os filhos da lua) que eram qual queijo e goiabada. É que eram filho e filha, terra e sol, metade menino e metade menina.

Ora, os deuses temeram a nossa força e destreza, e Tor disse: "Vou matá-los a martelo como matei os gigantes!" Mas Zeus disse: "Não! Deixa comigo: o meu raio trovejante vai parti-los ao meio como nunca dantes". E, tomando em mão os seus trovões, pôs-se a gargalhar e disse: "cortarei um em dois, e a nenhum vou poupar!" E na nuvem subiu, e do céu mirou nos mortais.

E em fogo do céu sobre nós relampeou, qual lâmina dum cutelo, e rasgou carne adentro desses filhos da lua, da terra e do sol. E o Bodisatva costurou o ferimento numa cicatriz e puxou-a pra barriga pra, à nossa vista, sempre nos lembrarmos. E Osíris e os deuses do Nilo consumaram a tormenta e fecharam o tempo: causaram terremoto, dilúvio, chuva e vento, num grande mar revolto. Puseram todos a correr, enfim. E é bom termos cuidado, não o façam os deuses de novo e vamos sofrer a vida pulando em um pé, com um só olho pra ver.

Da última vez que te vi, nós partíramos em dois. Tu olhavas pra mim e eu olhava pra nós dum jeito tão familiar que eu não reconheci quando o teu rosto a sangrar com meu sangrante olho vi. Mas eu jurei que via na tua alma uma dor que era a mesma que havia na minha. É uma dor que corta bem dentro do coração, a que chamam amor. Assim, atracamo-nos um no outro, tentando nos juntar de novo, e fizemos amor. Sim, amor.

Foi uma fria e escura noite que tanto tempo faz, quando pela mão de Zeus pai viramos tristes seres bípedes e sozinhos. Esta é a triste história da origem do amor.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

UM POUCO FALTA

Sempre sinto um pouco falta e queria ter-te aqui, cada vez que ouço água e contos, mas já não estás. E me iludo de te ver em transeuntes aleatórios, em espaços que eram nossos. Eu cultivo as tuas rosas em jardins que não há. Eu cultivo os sentimentos como antes. Mas não sei o que aconteceu que não consegues mais falar-me das coisas que me falavam tanto de ti. E se eu continuar e não consumar de novo? Sabes que não tenho mais pretextos pra te ligar, pra te procurar, pra te acercar. E ainda assim, ainda não acredito que não voltes pra mim. E me iludo numa espera que ao menos faz o céu mais sereno, senão o céu cai ― 'Cause I miss you, baby. And I don't wanna lo(o)se you...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

CURTE O DIA

 
  
Não perguntes não convém saber o fim
que darão os deuses a ti ou a mim
nem consultes o horóscopo pra lá achar.
Melhor aceitar o que de Deus venha:
se muitos anos, se um, pra nós tenha,
como este que enfraquece as ondas do mar,
pouco importa enfim. Sabe o vinho. Bebe.
Poda as longas esperas a um espaço breve.
Ao falarmos, foge o tempo, com inveja.
Curte o dia, e espera pouco plo que seja.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

ECOS DA PRAIA

          De pés juntos eu coube no quadrilátero carmesim de onde jurei nunca, nunca mais regressar e, perdido nos ecos da praia, erguendo os olhos à rocha a pico altíssima que se entalhava num semicírculo dentado contra a meia-luz crepuscular ― vela solitária e magnífica duma nau que nunca sofrerá o deitar-se ao mar, tesa em força de catástrofe sobre o aglutinamento inquieto de rochas antropomórficas no aguado do infinito ― eu não era, eu não era tentado a descobrir no céu luzes ainda luzentes.
          Rebaixei a vista e contemplei o tenebroso aos meus pés, tão claro como nunca o tinha pensado, que era suposto unisse e que não mais separa, mas separa, e imaginei se o cruzar fosse assim fácil como ali me era, se era inevitável que eu reviesse à ilha longínqua onde se esconde o encoberto. Voltarei numa manhã de nevoeiro? Ou de cinza vulcânica? E Camões e Vieira e o Infante, de lábios selados, rijos como a pedra que eram e foram, não me responderam.
          De pés juntos eu coube no quarilátero murado no alto da cumeeira do Padrão, rebaixei a vista e, Cipião desperto, contemplei o orbe na plenitude da praia, de onde ouvi ecoar no fundo da mente mentir um velho que pregava contra a vã cobiça, e nunca as suas palavras pareceram tão verdadeiras. Pra além das árvores, pra lá dos mosteiros, das pastelarias, das antenas, do emaranhado das pistas e do ronco dos automóveis distantes que eu não ouvia, eu vi nos tetos de Lisboa não a cidade de então. Eu a vi desde o início.
          Eu vi a cidade antiga, a cidade tingida, tingindo-se da cor das cruzes da Ordem, da seiva do sapão, do manto de El-Rei, do campo direito das bandeiras, do sangue dos meus olhos. Eu condoí-me duma cidade ruborizada de paixão por um mundo que quis possuir, um mundo muito seu ao qual em febre e ânsia estendeu os braços. Eu sofri o abalo do sismo que a privou, que me privou, das esperanças. Eu senti o tremor que concretizou o temor de uma alma que não tinha paz, não estava salva e ainda lhe sobreveio a aflição.
          Tornei a mim com a praia que continuava o eco quase ausente do fracasso das ondas fracas. E quando desci ao mais baixo, caminhei para fora e abri os olhos e vi que havia uma grande lua, grande como nunca houve ou nunca a vi, o que é um e o mesmo, e não mais pensei e não mais disse e percebi que estava bem assim. Sem palavras. Sem palavras.
            E de pés juntos eu jurei que ia regressar. Mas que ia regressar.

domingo, 23 de maio de 2010




Eu não sou fadista.

Eu sou mesmo o próprio fado.



quarta-feira, 12 de maio de 2010

O MÉDICO

       Quero saber o que eu tenho e te pergunto "o que eu tenho?" e não sabes o que me responder, porque, claro, apesar de teres a certeza de que me tens, mesmo com minhas idas e voltas, te cansei com a minha pachorra e, ainda que eu tentasse, nunca soube apurar a minha decisão.

      E neste preciso momento em que tudo vai mudando para mim, mesmo neste instante, estou certo que algum sinal te dei, mas não me escutaste, talvez sem intenção de tua parte ― pode ser um pouco fraco o som da minha voz.

        Sinto que devo encontrar-te e contar-te e, no entanto, passo o tempo que me resta preso aqui preso em mim, à procura do meu centro que jamais encontrarei. Desde sempre quis ter-te e tratar-te de modo decente, mas vês que não consigo desapegar do meu papel. Tenho que me tranquilizar e jogar o jogo que me propões tu; baixei a guarda, recebi-te e abriguei-te em minha pele. O destino sempre me deu corações desequilibrados, mas uma tua palavra me apruma e detém a minha queda.

      Uma dessas manhãs vais me ver chegar e descobrirás que eu sozinho já não estou melhor. E então vou te pedir que me acompanhes ― pra onde, em verdade, não sei. Mas diz que vens. Mente-me. 

       Pode ser que, afinal, partas o gelo que há em mim. Trataste-me o peito doente a sangrar: quebraste o silêncio que me fez afastar. Quiçá serás tu que me farás regressar. E pode ser que me faças falar. Intuo que sabes a forma melhor e, creio, que tens o dom que requer curar este mal.

domingo, 9 de maio de 2010

A PRESSA

     O bolo contava muitas velas. Viu-as já todas acesas quando lho trouxeram.

       Mas qual é a pressa?

      Ele pensou que talvez houvesse velas em demasia pra tão módico bolo. Era de chocolate, como ele sempre gostou. Mas as velas eram só velas; de cera, como soem ser. Os convidados não aditavam (em número ou em ardor) a metade delas. Sobre os bolos deles, quando os houve ou houvesse, não jazeriam tantas velas como sobre o dele. Nas festas deles, os convidados talvez fossem ― decerto eram ― mais numerosos que as velas. Elas acumulavam-se muito rápido, nesses dias, e pareciam tender a afugentar os outros.

      Mas qual é a pressa?

      Enfim, eram só convidados; aplaudentes, como soem ser. Antes que, de um aflato, se extinguissem as chamas, alguém já se adiantava a abordar os pratinhos e talherinhos, descartáveis como soem ser.

      Mas qual é a pressa?

      Tudo se processava muito rápido nesses dias, e os convidados eram pessoas do seu tempo. Quem sabe tinham outros lugares a ir, outras festas a frequentar, outras velas a acender, outros pratinhos e talherinhos a usar, outras pessoas a congratular, outros amigos a visitar. Descartáveis como soem ser. Ávidos de fazer tudo ao mesmo tempo, sem fazer nada no seu tempo, os convidados despedem-se dele antes de partir.

      Mas qual é a pressa?

      Ao fim, ele encontra-se sozinho com o que restou do bolo e das velas. Sente um vazio. E então um aperto no peito, frio como sói ser, que aumenta rápido enquanto a vista escurece.

      Mas qual é a pressa?

sábado, 1 de maio de 2010

A NOITE SANTA

        Do lado de fora, o entardecer serôdio espargia pirilampos morosos no azul betumado acima, incandescia sucessivas janelas e postes de luz numa cascata de chamas fluindo rua abaixo na direção de Paulo e Helena, a acirrar os sentidos e enevoar as percepções com o crescente cintilar das peles — gradualmente cobrindo-se dum rocio de suor que reluzia e começava a escapar de dentro dos poros. O delgado jato de uma brisa, insuflada de fora por uma fenda no caixilho, deflagra os primeiros calafrios que os corpos deles tinham começado a ansiar. O som abafado de ofegos. As roupas que pouco a pouco se espalham no chão. O bater de pestanas, as narinas dilatadas, as bocas entreabertas e as línguas enroscadas até se confundirem, enquanto os espíritos se entregam às venenosas gotas de inebriante suor, saliva e um jeito perturbador e ruidoso de amar, peculiar a meninos que descobrem os seus corpos, molhados e trêmulos.

         O sétimo mandamento derrete-se lentamente no sétimo pecado.

        Agora que tímidos pingos de chuva vêm tamborilar na janela, o seu ruído branco cede à noite que acolha o vício e o mal que possibilite a eles perderem-se nos sabores, abraços, apalpos e invasões instigados pelo odor pírico daquela noite fera. As imagens da televisão — já ignorada por completo — tremeluzem luz pouca e instável, e o seu som débil é devorado pela faminta calada da noite. Ó, santa noite. A chuva inunda Helena por dentro e ameça esguichar pra fora de Paulo. Mas o silêncio que lhes une as peles como por cola, ferve os fluidos a um grau demasiado quente pra eles sequer pensarem em soltar-se. Ao pé do ouvido dele, o gemido alto dela aspira o mundo inteiro, e ele não tem escolha senão vir pra dentro. E ele vem-se.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

SAGITTAE DOMINI IN ME SVNT

ou OS TERRORES QUE MILITAM CONTRA MIM



terça-feira, 6 de abril de 2010

MAELZEL

Diante de mim, ele mira-me cabeça adentro, quase através, dum olhar que evito qual a credores e dívidas antigas. São olhos de Diana no bosque, venatórios e sem vênia, que não fitam a presa quando a faceiam. Invés, inclemente imperador, instilam no íntimo inânimes pavores, desafiadores, ameaçadores ― como os dum morto quando estes brilham.

Moveu-se primeiro, tomou para si a guia. Por mais que o tentasse deter, consumia-me a cada vez que me consumia ― num mover-se de mão entrecortado, impassível ― membro a membro. Burlou-me, logrou-me, jogou-me como quis; e eu, outrora mestre, me vi aprendiz de olhos frios quando estes brilham.

Diante de mim, ele mira-me, de vista vidrada, quando me ecoa a sua voz, metalina, indiferente, cabeça adentro, quase através:

― Xeque.

terça-feira, 16 de março de 2010


לבי במזרח ואנכי בסוף מעד
ב...ב

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010


      Erguera-se vento, as nuvens cobriam o céu e começava a nevar. Caíam flocos finos como num diorama. Grossas lágrimas rolavam pelo rosto do príncipe. Nunca, nunca poderia viver na sua cidade natal. Para sempre era uma sombra perdida pelos caminhos. Nevava.