domingo, 23 de maio de 2010




Eu não sou fadista.

Eu sou mesmo o próprio fado.



quarta-feira, 12 de maio de 2010

O MÉDICO

       Quero saber o que eu tenho e te pergunto "o que eu tenho?" e não sabes o que me responder, porque, claro, apesar de teres a certeza de que me tens, mesmo com minhas idas e voltas, te cansei com a minha pachorra e, ainda que eu tentasse, nunca soube apurar a minha decisão.

      E neste preciso momento em que tudo vai mudando para mim, mesmo neste instante, estou certo que algum sinal te dei, mas não me escutaste, talvez sem intenção de tua parte ― pode ser um pouco fraco o som da minha voz.

        Sinto que devo encontrar-te e contar-te e, no entanto, passo o tempo que me resta preso aqui preso em mim, à procura do meu centro que jamais encontrarei. Desde sempre quis ter-te e tratar-te de modo decente, mas vês que não consigo desapegar do meu papel. Tenho que me tranquilizar e jogar o jogo que me propões tu; baixei a guarda, recebi-te e abriguei-te em minha pele. O destino sempre me deu corações desequilibrados, mas uma tua palavra me apruma e detém a minha queda.

      Uma dessas manhãs vais me ver chegar e descobrirás que eu sozinho já não estou melhor. E então vou te pedir que me acompanhes ― pra onde, em verdade, não sei. Mas diz que vens. Mente-me. 

       Pode ser que, afinal, partas o gelo que há em mim. Trataste-me o peito doente a sangrar: quebraste o silêncio que me fez afastar. Quiçá serás tu que me farás regressar. E pode ser que me faças falar. Intuo que sabes a forma melhor e, creio, que tens o dom que requer curar este mal.

domingo, 9 de maio de 2010

A PRESSA

     O bolo contava muitas velas. Viu-as já todas acesas quando lho trouxeram.

       Mas qual é a pressa?

      Ele pensou que talvez houvesse velas em demasia pra tão módico bolo. Era de chocolate, como ele sempre gostou. Mas as velas eram só velas; de cera, como soem ser. Os convidados não aditavam (em número ou em ardor) a metade delas. Sobre os bolos deles, quando os houve ou houvesse, não jazeriam tantas velas como sobre o dele. Nas festas deles, os convidados talvez fossem ― decerto eram ― mais numerosos que as velas. Elas acumulavam-se muito rápido, nesses dias, e pareciam tender a afugentar os outros.

      Mas qual é a pressa?

      Enfim, eram só convidados; aplaudentes, como soem ser. Antes que, de um aflato, se extinguissem as chamas, alguém já se adiantava a abordar os pratinhos e talherinhos, descartáveis como soem ser.

      Mas qual é a pressa?

      Tudo se processava muito rápido nesses dias, e os convidados eram pessoas do seu tempo. Quem sabe tinham outros lugares a ir, outras festas a frequentar, outras velas a acender, outros pratinhos e talherinhos a usar, outras pessoas a congratular, outros amigos a visitar. Descartáveis como soem ser. Ávidos de fazer tudo ao mesmo tempo, sem fazer nada no seu tempo, os convidados despedem-se dele antes de partir.

      Mas qual é a pressa?

      Ao fim, ele encontra-se sozinho com o que restou do bolo e das velas. Sente um vazio. E então um aperto no peito, frio como sói ser, que aumenta rápido enquanto a vista escurece.

      Mas qual é a pressa?

sábado, 1 de maio de 2010

A NOITE SANTA

        Do lado de fora, o entardecer serôdio espargia pirilampos morosos no azul betumado acima, incandescia sucessivas janelas e postes de luz numa cascata de chamas fluindo rua abaixo na direção de Paulo e Helena, a acirrar os sentidos e enevoar as percepções com o crescente cintilar das peles — gradualmente cobrindo-se dum rocio de suor que reluzia e começava a escapar de dentro dos poros. O delgado jato de uma brisa, insuflada de fora por uma fenda no caixilho, deflagra os primeiros calafrios que os corpos deles tinham começado a ansiar. O som abafado de ofegos. As roupas que pouco a pouco se espalham no chão. O bater de pestanas, as narinas dilatadas, as bocas entreabertas e as línguas enroscadas até se confundirem, enquanto os espíritos se entregam às venenosas gotas de inebriante suor, saliva e um jeito perturbador e ruidoso de amar, peculiar a meninos que descobrem os seus corpos, molhados e trêmulos.

         O sétimo mandamento derrete-se lentamente no sétimo pecado.

        Agora que tímidos pingos de chuva vêm tamborilar na janela, o seu ruído branco cede à noite que acolha o vício e o mal que possibilite a eles perderem-se nos sabores, abraços, apalpos e invasões instigados pelo odor pírico daquela noite fera. As imagens da televisão — já ignorada por completo — tremeluzem luz pouca e instável, e o seu som débil é devorado pela faminta calada da noite. Ó, santa noite. A chuva inunda Helena por dentro e ameça esguichar pra fora de Paulo. Mas o silêncio que lhes une as peles como por cola, ferve os fluidos a um grau demasiado quente pra eles sequer pensarem em soltar-se. Ao pé do ouvido dele, o gemido alto dela aspira o mundo inteiro, e ele não tem escolha senão vir pra dentro. E ele vem-se.