sábado, 1 de maio de 2010

A NOITE SANTA

        Do lado de fora, o entardecer serôdio espargia pirilampos morosos no azul betumado acima, incandescia sucessivas janelas e postes de luz numa cascata de chamas fluindo rua abaixo na direção de Paulo e Helena, a acirrar os sentidos e enevoar as percepções com o crescente cintilar das peles — gradualmente cobrindo-se dum rocio de suor que reluzia e começava a escapar de dentro dos poros. O delgado jato de uma brisa, insuflada de fora por uma fenda no caixilho, deflagra os primeiros calafrios que os corpos deles tinham começado a ansiar. O som abafado de ofegos. As roupas que pouco a pouco se espalham no chão. O bater de pestanas, as narinas dilatadas, as bocas entreabertas e as línguas enroscadas até se confundirem, enquanto os espíritos se entregam às venenosas gotas de inebriante suor, saliva e um jeito perturbador e ruidoso de amar, peculiar a meninos que descobrem os seus corpos, molhados e trêmulos.

         O sétimo mandamento derrete-se lentamente no sétimo pecado.

        Agora que tímidos pingos de chuva vêm tamborilar na janela, o seu ruído branco cede à noite que acolha o vício e o mal que possibilite a eles perderem-se nos sabores, abraços, apalpos e invasões instigados pelo odor pírico daquela noite fera. As imagens da televisão — já ignorada por completo — tremeluzem luz pouca e instável, e o seu som débil é devorado pela faminta calada da noite. Ó, santa noite. A chuva inunda Helena por dentro e ameça esguichar pra fora de Paulo. Mas o silêncio que lhes une as peles como por cola, ferve os fluidos a um grau demasiado quente pra eles sequer pensarem em soltar-se. Ao pé do ouvido dele, o gemido alto dela aspira o mundo inteiro, e ele não tem escolha senão vir pra dentro. E ele vem-se.

2 comentários:

Rodrigo Slama disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodrigo Slama disse...

Se fosse escrever esta mesma situação, utilizaria menos eufemismos e imágens poéticas... que inveja!