domingo, 9 de maio de 2010

A PRESSA

     O bolo contava muitas velas. Viu-as já todas acesas quando lho trouxeram.

       Mas qual é a pressa?

      Ele pensou que talvez houvesse velas em demasia pra tão módico bolo. Era de chocolate, como ele sempre gostou. Mas as velas eram só velas; de cera, como soem ser. Os convidados não aditavam (em número ou em ardor) a metade delas. Sobre os bolos deles, quando os houve ou houvesse, não jazeriam tantas velas como sobre o dele. Nas festas deles, os convidados talvez fossem ― decerto eram ― mais numerosos que as velas. Elas acumulavam-se muito rápido, nesses dias, e pareciam tender a afugentar os outros.

      Mas qual é a pressa?

      Enfim, eram só convidados; aplaudentes, como soem ser. Antes que, de um aflato, se extinguissem as chamas, alguém já se adiantava a abordar os pratinhos e talherinhos, descartáveis como soem ser.

      Mas qual é a pressa?

      Tudo se processava muito rápido nesses dias, e os convidados eram pessoas do seu tempo. Quem sabe tinham outros lugares a ir, outras festas a frequentar, outras velas a acender, outros pratinhos e talherinhos a usar, outras pessoas a congratular, outros amigos a visitar. Descartáveis como soem ser. Ávidos de fazer tudo ao mesmo tempo, sem fazer nada no seu tempo, os convidados despedem-se dele antes de partir.

      Mas qual é a pressa?

      Ao fim, ele encontra-se sozinho com o que restou do bolo e das velas. Sente um vazio. E então um aperto no peito, frio como sói ser, que aumenta rápido enquanto a vista escurece.

      Mas qual é a pressa?

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