quinta-feira, 10 de junho de 2010

ECOS DA PRAIA

          De pés juntos eu coube no quadrilátero carmesim de onde jurei nunca, nunca mais regressar e, perdido nos ecos da praia, erguendo os olhos à rocha a pico altíssima que se entalhava num semicírculo dentado contra a meia-luz crepuscular ― vela solitária e magnífica duma nau que nunca sofrerá o deitar-se ao mar, tesa em força de catástrofe sobre o aglutinamento inquieto de rochas antropomórficas no aguado do infinito ― eu não era, eu não era tentado a descobrir no céu luzes ainda luzentes.
          Rebaixei a vista e contemplei o tenebroso aos meus pés, tão claro como nunca o tinha pensado, que era suposto unisse e que não mais separa, mas separa, e imaginei se o cruzar fosse assim fácil como ali me era, se era inevitável que eu reviesse à ilha longínqua onde se esconde o encoberto. Voltarei numa manhã de nevoeiro? Ou de cinza vulcânica? E Camões e Vieira e o Infante, de lábios selados, rijos como a pedra que eram e foram, não me responderam.
          De pés juntos eu coube no quarilátero murado no alto da cumeeira do Padrão, rebaixei a vista e, Cipião desperto, contemplei o orbe na plenitude da praia, de onde ouvi ecoar no fundo da mente mentir um velho que pregava contra a vã cobiça, e nunca as suas palavras pareceram tão verdadeiras. Pra além das árvores, pra lá dos mosteiros, das pastelarias, das antenas, do emaranhado das pistas e do ronco dos automóveis distantes que eu não ouvia, eu vi nos tetos de Lisboa não a cidade de então. Eu a vi desde o início.
          Eu vi a cidade antiga, a cidade tingida, tingindo-se da cor das cruzes da Ordem, da seiva do sapão, do manto de El-Rei, do campo direito das bandeiras, do sangue dos meus olhos. Eu condoí-me duma cidade ruborizada de paixão por um mundo que quis possuir, um mundo muito seu ao qual em febre e ânsia estendeu os braços. Eu sofri o abalo do sismo que a privou, que me privou, das esperanças. Eu senti o tremor que concretizou o temor de uma alma que não tinha paz, não estava salva e ainda lhe sobreveio a aflição.
          Tornei a mim com a praia que continuava o eco quase ausente do fracasso das ondas fracas. E quando desci ao mais baixo, caminhei para fora e abri os olhos e vi que havia uma grande lua, grande como nunca houve ou nunca a vi, o que é um e o mesmo, e não mais pensei e não mais disse e percebi que estava bem assim. Sem palavras. Sem palavras.
            E de pés juntos eu jurei que ia regressar. Mas que ia regressar.

1 comentário:

Rodrigo Slama disse...

Não sei se o que é pior: caber ou não caber nos quadriláteros da vida...