domingo, 4 de dezembro de 2011

A juventude é a amante mais infiel que há. E ainda assim forjamos a sua saudade, polindo os momentos pra brilharem na História...


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

QUASE VIDA

Alguns dos meus feitos mais sombrios que permanecem inconfessos findaram por tornar-se a maioria dos milagres que eu efetuei. E isso podia ser significativo à partida, se eu não me sentisse mais amaldiçoado do que abençoado, condenado a ouvir os pecados mais terríveis, quando já incapaz de os perdoar.

Eu preciso de uma experiência de quase-vida. Uma que me deixe feliz pelas almas que eu salvei, porque, das que eu perdi, todas eram minhas.

Pelas asas e pelas raízes com que fui dotado, e todos os jardins em que suei gotas de sangue agônico, devo guardar a ética e o pudor do silêncio, para poder declarar desconhecimento dos fatos, quando rogar por perdão e misericórdia, ao finalmente subir para o meu calvário.

Eu preciso de uma experiência de quase-vida. Uma que me faça aprender das batalhas que eu venci, porque, das que eu perdi, todas foram em mim.

Eu preciso de uma experiência de quase-vida. Uma que me orgulhe do pai que me abandonou, porque, aos que eu tive, eu nunca perguntei por quê.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

CÉU DE SOL

Céu de sol,
que posto com a promessa de estar
logo após —
manhã de amanhã — a regressar,
tenha dó
da alma que no frio deixou pra trás.

Como se não houver
nem céu nem sol pra ver:
eterno escurecer
de estrelas sem luzir.

Duro olhar
dessa infindável lua que sai
pra acordar
todos os fantasmas que há.
Nenhum deles
vai trazer meu céu de sol pra mim.

Como se não houver
nem céu nem sol pra ver:
eterno escurecer
de estrelas sem luzir
aqui.

Um outro ano então,
uma outra estação,
talvez uma depois
melhor que a que foi.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

?כמה פעמים סלחת לי
?האם אני סלחתי גם לך

,רציתי לדעת לדבר אתך
,רציתי לדעת לספר לך
,רציתי לדעת להיות לך
,רציתי לדעת לרגש אותך
...רציתי לדעת לאהוב אותך

domingo, 27 de novembro de 2011

Ele arrepende-se de ter sido impaciente. Se eles tivessem ficado juntos mais tempo, talvez tivessem começado a compreender pouco a pouco as palavras que eles pronunciavam. Os seus vocabulários ter-se-iam pudicamente e lentamente aproximado como amantes bem tímidos, e a música de ambos teria começado a se fundir na música do outro. Mas agora é demasiado tarde.


domingo, 24 de julho de 2011

Resplandece a lua no céu,
Traz de estrelas véu.
Sua face a noite apagou:
À estrela ofuscou.
Desvanece o seu cintilar;
À lua dá-lo-á.
Gorda esfera flutua no ar:
Toda a luz que há.

A lua já o céu deixou
E consigo levou
A noite,
a estrela,
o meu langor,
A saudade e a dor.

A lua sai, a noite cai,
Horas se vão, vigor se vai.
Sabendo que o tempo me esvai,
Eu resto, sobro e estou
Tão
Só.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

EU SEI

Retire os bens de todos maus e diga ao povo que você se foi. E erga as mãos para os céus — tudo se torna tão mais claro depois! — Deixámos todo o tempo ir. Preocupo-me: ele corre tão fugaz. Mas eu me sinto a salvo aqui e pouco importa o que haja mais.
E isso eu sei,
Eu sei.
Eu sei...

O mundo é uma criança má e minha mente sempre foi assim. Os monstros parecem apagar, ao acordar dum outro sonho ruim. Quando menino, tudo vai: um doce só deixava-me feliz. Eu rio, se olho para trás — velho, banguelo, e tão seguro aqui.
E isso eu sei,
Eu sei.
Eu sei...

sábado, 11 de junho de 2011

GRACIOSO COM SÚBITO JÚBILO

No nosso prado, onde pastam equinos
em flores silvestres de primavera a pino,
gotejos de anis preenchem o ar de aroma.

De sob sopros de bruma recendem
vapores que ao repouso despendem;
a estação desperta matura virtude.

Regato onde deusas alvejam linho
a vir despejar néctar divino,
enche taças de ouro fino,
gracioso com súbito júbilo.

Aqui rosas fazem sombras pelas eiras,
fontes borbulham dentre macieiras,
enquanto chovem folhas tremedeiras
em profunda hibernação.

segunda-feira, 25 de abril de 2011


As palavras escorriam daqueles lábios e rebrilhavam nos seus olhos. As suas íris eram cilindros claros de surpreendente profundidade e completo vazio — só chapinhavam mudos lá dentro uns poucos charcos de mágoa azulada. Do mesmo azul dos meus olhos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

ESTA CARTA DIMINUíDA

Éforo, tinhas a peça que faltava pra montar a minha vida. Vi em ti a salvação do juízo que não chegara, o dissipar dos pavores que eu desconhecia, a ablução das faltas que eu ainda não tinha. Dentro de mim eras-me tudo, Éforo, eras azul tamanho e infinito, quase tão grande como a ferida que se tornou a tua ausência.

E esta ferida é continuamente magoada por estas lágrimas afiadas, que talham em mim tanta santidade como nos meus pulsos o canivete. Sabes, os mantras infalíveis e os comprimidos não surtem mais efeito. O friozinho, outrora na barriga, já foi digerido, e os milagres já não trazem maravilhas. Toda esperança eu venho sacrificando, mas esse martírio não garante o Paraíso. Porque o meu sangue tens derramado sobre a minha carne que levedaste. Este é o meu corpo, Éforo: toma-me e come.

Nós invocamos medos que não devíamos ter, só pelos calafrios da descoberta. Nós os levamos a sítios proibidos, a lugares mal-assombrados, e agora não sabemos como sair. Não se podem exorcizar fantasmas quando se é um deles. Por forjarmos enganos à vontade, pra afogar a vergonha e a culpa, eu construí uma âncora que me puxa pra fundo, bem fundo, num mar que me macula a alma, Éforo, onde se navega sob o estandarte de pecados dos quais me arrependo, mas não sei deixar; pecados que tentam chamar a tua atenção (quando é impossível obtê-la).

Eu tentei, eu juro que tentei, tirar de mim as manchas, afastar-me do mal, mas essas roupas no chão sempre nos denunciam.

Então, por solvente substituto, eu escrevo-te esta carta diminuída, pra dizer que espalhaste o meu quebra-cabeças, quando eu tava tão perto de terminar.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O CÉU SOBRE NÓS

O céu sobre nós, prognosticador:
Um pombo que traz, qual novas de paz,
Agouros de dor
Aos filhos do sol, de esperança vã.
Eles devem ter a chance de ser,
Provar da maçã
Do céu sobre nós, em gotas de luz
De incerto matiz, arco-íris gris
Em tons de azuis
Que súbito vêm no ar decompor
de orvalho à manhã, em escuro rubor,
O sangue que cai.
E a condenação, no céu sobre nós,
Escrita à mão e lida em alta voz,
Ninguém a poupar.
Ao autoinfligir a revelação:
Da dúvida o sim, da súplica o não,
Do sonho o fim.

Se cessa o gritar no tolher da voz,
Se tudo passar,
O fim cairá
Do céu sobre nós.