sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fim de mundo, fim do mundo. Findo imundo. Findo mudo. Fino em tudo. Fim. De tudo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

MEU BISTROT PREFERIDO

Meu bistrot preferido, algures lá no Céu,
acolhe-me, por vezes, no jardim do bom Deus.
É um lugar tranquilo, em que me ocorre beber
em companhia dos que me populam o ser.
Em dia que me vague a alma, ou em noite que me deprima,
vou me consolar junto a artistas de rima.
Seco um copo ou dois, falando de pintura,
De amor, de música e de literatura.
Meu bistrot preferido, algures lá no Alto,
eu juro, e me desculpo, se de fêmeas é falto;
mas os amigos que o assombram de dor
sabem tanto que elas bem o que é o amor,
e vivem tanto mais, em memória e engenho,
que a maioria dos contemporâneos que tenho.
E se amanhã a gadanheira me tomar pela mão,
que ela me conduza ao bistrot dos irmãos.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012


Ela me enfeitiçou: cabeça corpo e só. A cigana reduziu-me a pó.
Minha bússola perdi, desviei-me do norte. Nesses meandros, arrisquei a morte.
Enebriou-me ela e um erro eu fiz; mas a estroina só o meu ouro quis.
A bruxa me enganou, provou-se vil e má, mas já em breve se imolará.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

DE REPENTE

     De repente, tudo passou. Menos os suores frios que acabaram de chegar em seu corpo amedrontado e inerte. Seja lá o que for que esteve por lá, já havia partido. E o sono, que sempre esteve atrasado pra chegar e que, às vezes, nem chegava, estava vindo e abrandando os furores, acalmando o espírito e fazendo-o, por algumas horas, sentir-se como quem estava em um reino de paz, em um vale verde, em águas calmas e cristalinas, em um abrigo seguro e intransponível.

     Mesmo assim, ele não sonhou durante a noite, só sentiu. Sentiu como algo nunca antes sentido, como a mais agradável experiência de uma vida atormentada e pesada, sem coragem e sem verve. Provou da calmaria depois de uma longa tempestade de vinte e poucos anos e uns quebrados. Foi a noite mais bem dormida da História da Humanidade, foi a paz mais duradoura de uma vida de lutas. Foi o momento de glória mais completo que ele jamais havia imaginado; êxtase quase infinito. Liberdade.

     E o sol nasceu. Alguns minutos depois ele acordava novamente. Dessa vez, sentia como se estivesse novo, como se pudesse vencer qualquer obstáculo e transpor qualquer barreira; e foi assim que ele saiu de casa nesse dia: tranquilo e calmo, forte e confiante pela primeira vez em tanto tempo que ele nem se lembrava de nada mais daquilo, nem da confiança, nem da força, nem de nada similar.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012


Tenho desejos escritos no alto, que vão voando. Cada pensamento é independente do meu corpo, que farão do mal presente "somente" e "ainda".

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

PORQUE

Porque agora eu sei diferir joio de trigo, riso de pranto, obra de esquisso, dúzia de meia, vara de cajado, escudo de broquel; porque eu já não preciso de tantas palavras; porque eu sei fazer arte do que há de pior; porque eu vi a luz e vim do futuro; porque eu fui ao passado e, dos muito poucos, eu sou menos ainda.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

SIMPLES

Velho, cansado, incapaz, ainda sem talentos, ainda incompleto e ainda sozinho (sempre sem saber ao certo quem era), já não procurava nada, tampouco esperava muito. Mas importava que ele, que nunca suficiou a si, não tentava mais se suficiar nos outros. Não corria mais; não tinha mais obrigações, nem se impunha mais nenhuma. O seu coração não era mais o mesmo, não sentia que doía mais; às vezes nem sentia que batia mais. Após muito caminhar, sentou-se resoluto, e salvaguardou o seu coração reconfortado do conhecimento de que ser feliz é simples (mas não fácil), porque tudo importa, mas nada é suficiente.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

VERÁS

Eu e os meus olhos escuros crescemos juntos com uma alma cheia de manias. E vivemos uma vida à procura de um lugar que não existe entre mil manhãs frescas sem automóveis e mais mil ocasos através de janelas e uma fome de sorrisos e braços em torno de mim.

E eu, entre as cassetes e os discos e os endereços que perdi e as lembranças que esqueci, vi rostos e vozes de quem amei antes ou depois de ir embora. Respirei sob mares desconhecidos em praias largas e vazias de um verão citadino ao lado da minha sombra, longa de melancolia.

Eu e as minhas tantas noites trancadas como o fechar de um guardachuva, com o rosto sobre o resto, dedos lentos lendo dores e traumas, caminhamos por ruas curvas que seguem o vento e, dentro, uma sensação de inutilidade que, frágil e violenta, me disse: verás. Verás. Fazendo estrada verás e encontrarás um gancho em meio ao céu e sentirás na estrada fazer bater o coração, e verás.

Sou pequeno entre tanta gente que há no mundo e sonhei com um comboio que jamais partiu. Corri em meio a prados brancos de lua para agarrar ainda um dia a minha ingenuidade e, jovem e envelhecido, disse-me: verás. Verás que uma canção pode mudar a vida e fazer seguir adiante e dizer que não é finda e, entre destroços de coração, fazer cantar outra vez o amor, pra que amanhã seja melhor. Verás.


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

UM PEIXE


Infeliz dele, criatura incompleta, que era a cada dia menos ele mesmo, nutrindo essas esperanças de reencontro consigo, ávido por aprovações, parabéns, obrigados, bem-vindos que nunca chegavam, já nem percebendo a si dentre tantos papéis, obrigações e buscas, todos infrutíferos e estéreis que o seu coração não aguentava, atormentado pelo arrependimento e pela dependência dos tantos agrados que nunca lhe foram correspondidos. Era um peixe de terra firme que relutava em tentar adequar-se dentro d'água e cada vez mais sentia-se a nadar contra a corrente, afogar, corromper, começar a temer nem sequer reconhecer-se quando (e se) se encontrasse.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

ALGO INOMINÁVEL

    Exatamente por que isso teve de acontecer, por que devia acontecer com ele, ele não teria hipótese de dizer como. Nem talvez jamais lhe pudesse ocorrer de procurar uma razão. Nem era nada ao certo, só uma ideia. E por que teria virado tão maravilhosa, tão permanente pra ele, esse era o mistério. Era prazeroso, disparatado, até. Mas, acima de tudo, isso era um segredo: algo a ser preciosamente escondido. Era como se, dum jeito deleitoso, o seu segredo lhe desse uma fortaleza, um muro detrás do qual ele pudesse retirar-se em reclusão paradisíaca. Tudo o que ele precisava fazer era pensar naquela manhã. A primeira manhã. E então em todas as outras.
    Fora um momentinho antes de ele acordar, ou talvez no próprio momento, que acontecera. Bizarro. Foi o efeito que essa nova descoberta teve nele. Durante toda a manhã seguinte manteve-se nele uma sensação que lhe caía ao redor. Uma tela secreta entre ele e o mundo. Se ele não tivesse sonhado uma tal coisa – e como ele podia ter sonhado enquanto acordado? – como alguém podia explicar? Ele já não lembrava se foi só na terceira ou na segunda (ou foi na quarta?) manhã que lhe repararam uma certa estranheza no jeito.
    Foi na terceira ou na quarta manhã? Ou quiçá na quinta ou na sexta? Ele já não conseguia lembrar exatamente quando o delicioso progresso começara a clarear. Tudo o que ele sabia era que, em algum ponto, a presença se tornou mais insistente. Quando ele descobria a cada manhã, ao ir à janela, que nada fazia diferença no mundo exterior. Era precisamente o que ele esperava. Era até mesmo o que lhe dava prazer, o que o recompensava.
    Como se podia explicar? Seria prudente explicar? Não lhe traria algum tipo obscuro de problema? E como pôr em palavras o que estava além delas?
    Às vezes efetivamente doía-lhe a vontade de contar a todos sobre tudo. Mas aí voltava a noção do misterioso poder do segredo. Não, ele devia manter o silêncio. Isso ficava mais e mais claro.
    Algo pulsava no fundo da sua mente, algo inominável, algo deliciosamente assombroso. Algo que o esperava, que dizia: “quando estivermos a sós, vou te contar algo novo, algo frio, algo sonolento, algo pacificador. No teu quarto, eu vou te contar uma história. A última, a mais linda, a mais secreta história. Uma que fica cada vez menor. Como uma flor que vira semente. Vou circundar a tua cama, vou barricar a porta e ninguém nunca mais poderá perturbar-nos. Nesta alva escuridão, nós substitituiremos tudo o mais.”

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Sou ferrado pelo meu nome. Possui-me um deus que não me dará jamais descanso. E em descaso a dor me adormece, tão doente que já não sei que estou.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

FILMES

Quando estava triste, assistia o mesmo filme várias e várias vezes, tentando cair num conundro impassível de sensações, pra tentar gravar os sentimentos já sentidos e fugir dos ainda não. Verdade é que ele tinha medo do inédito, do novo, de tudo aquilo que a educação dele tinha ensinado a ter medo, e ele, como bom aluno, tinha aprendido bem. E preferia calar-se quanto a isso, abster-se dessas coisas e fingir que elas não existiam e continuar a vida como se nada fosse diferente.

Mas olhando com atenção, qualquer um podia perceber que ele sonhava (profudamente), e não era bem com aquele mundo que tinham ensinado a ele. De fato, os sonhos sucediam-se na sua cabeça noite e dia (mas mais claramente à noite, claro), sonhos que passavam na mente dele como que projeções de filmes que ele nunca tinha visto, e por isso ele às vezes se perdia em pensamentos no meio das tarefas, sem se dar nem conta, e continuava assim distraído quem sabe por horas. Se alguém dava por isso, podiam perguntar no que ele estava pensando. Mas ele não ia querer responder. Não gostava de mentir, mas dizer a verdade às vezes era difícil.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Nasceu o rei de Israel.

domingo, 7 de outubro de 2012

(DES)CONSTRUÇÕES

A gente desaprende certas coisas, e faz bem, contanto que, desaprendendo estas, aprenda aquelas. Não há vazio no coração humano. Certas demolições se fazem, e é bom que elas se façam, mas sob condição de serem seguidas de reconstruções. Enquanto esperamos, estudemos as coisas que não mais são. É necessário conhecê-las, nem que seja só para as evitar. Os arremedos do passado dão-se nomes falsos e chamam-se prazenteiramente de futuro. Esse morto-vivo, o passado, está sujeito a falsificar o seu passaporte. Ponhamo-nos a par da armadilha. Desconfiemos. O passado tem uma cara, a superstição, e uma máscara, a hipocrisia. Denunciemos a cara e arranquemos a máscara.

sábado, 6 de outubro de 2012

O AMOR VENCIDO

Era uma porcelana de faiança representando amores que fugiam aos voos perseguidos por rapazes boticários armados de enormes seringas. A perseguição abundava em caretas e posturas cômicas. Um dos charmosos amorezinhos estava já traspassado. Ele debatia-se, agitando as asinhas e tentando ainda voar, mas o assassino ria-se dele com um sorriso satânico. Moral da história: o amor vencido pela cólica.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

M

É tempo: levantemos âncora. Este país nos entedia, aprontemo-nos. Se o céu e o mar são negros como tinta, o meu coração já se enche de raios. Serve-nos o teu veneno para que ele nos reconforte. Tanto me queima a mente que quero mergulhar ao fundo do abismo — Inferno ou Céu, que importa? Ao fundo do desconhecido para encontrar o novo.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

?

A Dona Felicidade está acampando com o Bem-Estar, eu estou sozinho e já disse que anjos não existem (e nem que existissem, eles andam de mãos dadas que com a Felicidade). Então me ignore e me empurre.


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

NO DIA EM QUE O AMOR

No dia em que o amor me veio, de olhos claros, em forma alada, chegou taciturno, sorrateiro, fingindo que não fosse nada, quando eu quis ter, em outro peito, a alma que a mim me faltava. Foi quando, já avesso a maus amores, cri ter descoberto, enfim, o alívio que me curaria as dores, meu anjo que caiu do céu, assim. Dei-lhe pois minhas últimas flores, deste outono que se anuncia em mim, e, em troca, pedi-lhe que fosse o alento, o presente do meu futuro fim. E eu esperei que, no meu abraço contido, esperei que o meu céu lhe fosse assaz. Mas esqueci que, para um anjo caído, nem toda a terra, nem o céu satisfaz. E o amor zombou, troçou, desfez de mim, que mesmo errando pude ser melhor, não ter medo. Mas, em vez, foi-lhe pouco e, desdenhoso e rude, no dia em que o amor se foi, de palavras rasas, cara virada, disse-me (coisa que ainda dói) que não me diria mais nada, que esperou de mim respeito, — de mim! que esperara com calma, na adoração de cada seu jeito, o dia em que, enfim, me daria suʼalma. E o amor deixou-me assim, mais ferido que nunca antes, mais triste, amargo e ruim.

domingo, 30 de setembro de 2012

DE ROSAS ANACRÔNICAS E PRÍNCIPES AMPUTADOS

Rosa, não sei se te lembras do jeito que me lembro, mas não sei se quero que sim. Não desejo ser uma lembrança de uma vida em rosa: não sou bom com o passado, mesmo que não creias, por eu nunca te ter oferecido um presente que gostasses. Mas fuck the logic. Tudo bem que a vida não é um Hollywood movie e os happy ends são bullshit.
Tudo bem que eu não consigo concatenar pensamentos ordenados, ou fazer citações que os outros entendam, ou falar uma só língua por vez, mas o que é que isso importa? Os finais felizes, se não os inventamos, ninguém os inventa por nós. E, de toda forma, como já disse quem eu não lembro, o final depende de quando a gente para o filme.
Pois bem, paremos o filme agora, Rosa. Congelemos a imagem neste instante eterno e vivamos felizes. Vivamos para sempre. J'aurai l'air d'être mort et ce ne sera pas vrai.
Não sei se onde quer que estejas será dia ou será noite, quando leres esta mensagem, mas sei que jamais hás de estar tão mal quanto eu sempre estive. Eu não sou um bom lugar, Rosa. Sempre te disse isso. Mas, quanto a mim, é aqui que sempre estarei. Vou te trazer para conhecer, verás, é um lugar que decerto te agradará. Mas não te prometo nada. Não posso. O futuro a Deus pertence. Mas o que é que estou dizendo? Eu prometo tudo.
Lembra de mim. Lembra como fosse ontem. Lembra como fosse sempre. Porque foi. És o mais próximo à eternidade que eu jamais chegarei, Rosa. Enquanto eu viver em ti, eu viverei. Sê as minhas pernas: caminha-me rumo ao porvir em devir. Será o tempo perdido que me fará importante também.
E esse será o único tempo que poderá ser nosso. Pra sempre.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

VIDA

Querida ***,
Espero que esta carta te encontre bem. Quanto a mim, estou bem, agradeço pela preocupação. Tenho a certeza de que tudo não está pior do que poderia: desde que comecei a trabalhar na rua, só fui agredido duas vezes.
Esta vida consome muito. Consome o corpo, consome o tempo. Ainda não tive ocasião de descobrir ou me divertir com os encantos desta cidade enorme. Mas, sejamos justos, os dias nunca são iguais. É que lutar pela sobrevivência deixa tudo sob nova perspetiva, e os vestidos repetidos, e os tacões gastos, e a rotina que costumava entediar agora já não o faz. Com o medo, esta vida consome o amor que a gente inala para vender.
Envio-te um abraço, e as melhores lembranças, e os três dinheiros que eu consegui juntar.
É bom saber que o tempo aí está bom. Aqui a noite sopra fria pela janela, porque quebrada, mas é a única que eu tenho. Esta vida consome o espaço. E agora me apanho a pensar que este é o inverno mais frio que eu já passei, mesmo quando aquecido pelos braços de um novo estranho que no seu sonho sussurra que eu sou linda.
Desculpa se pareço desconexo quando escrevo. A cada dia mudo uma opinião, e não me parecem mais tão otimistas como de costume. Esta vida consome a alma. Mas pra testemunhar eu viverei, e o meu relato darei das esperanças estéreis e suas intenções abortadas.
Espero que um dia te encontre bem. Envio-te todo o meu amor, e os meus sonhos, e o meu coração, e a certeza de que eu não serei uma estrela.
De quem te quer bem,
---

terça-feira, 24 de julho de 2012

לא

Era a mesma criança — os mesmos ombros frágeis cor de mel, as mesmas costas nuas, sedosas e flexíveis e a mesma cabeleira escura. A fina camisa ocultava dos meus olhos de macaco a envelhecer, mas não dos da memória, o torso moço que eu acariciara certo dia imortal. Reconheci o pequeno sinal castanho-escuro diante da sua orelha. Reverente e deleitado, relanceei num seu movimento o encantador abdômen retraído, onde a minha boca, em demanda de regiões mais ao sul, se detivera brevemente, e aquelas ancas infantis, onde beijara a marca crenulada deixada pelo elástico dos calções, naquele derradeiro, louco e imortal dia. Os tantos dias que vivera desde então afuselaram-se até formarem um ponto palpitante e desapareceram. 

Tenho muita dificuldade em exprimir com a força adequada aquele clarão, aquele arrepio, o impacto do reconhecimento apaixonado. No decorrer do momento em que o meu olhar deslizou pela criança deitada (os seus olhos felinos piscavam singelos) — eu no meu disfarce de adulto (um grande e bonito pedaço de virilidade cinematográfica) — o vácuo da minha alma conseguiu aspirar todos os pormenores da sua luminosa beleza. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012



Sempre pensei se, na minha hora mais negra e no meu desespero mais profundo, te ias fazer presente, se te ias importar com o meu juízo e a minha tribulação, quando eu passasse pela dúvida, pela frustração, pela turbulência, pelo medo, pela angústia, pela dor e pela tristeza. Eu esperei que me reconfortasses com a esperança de um amanhã. Eu esperei.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

OS MELHORES ENGODOS

Ouvi sobre a sua noite. Vi as fotografias. Contaram-me das suas conquistas, interessantes para alguém que estava somente à espera. Soube do tempo, do ar, da festa, dos rapazes com quem os fruiu. E pensei que devesse tê-lo ouvido de si.

Vejo que agora acabou o fingimento. Mas todos os prêmios de Os Melhores Engodos e O Melhor Conto da Carochinha vão para você. Mas calma, o mundo dá voltas, eu sei que sim, um dia. E então os seus beijos, que relatam os lábios de outras pessoas, serão úteis para manter a sua distância.

Aguardo que o sangue reflua pelos meus dedos: ficarei bem quando as minhas mãos se reaquecerem. Ignoro o telefone. Prefiro não dizer nada. Prefiro que não ouça mais a minha voz. Você ligou tarde demais para causar alguma simpatia. Você ligou tarde demais.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Onde estará o meu amor?
Será que vela como eu?
Será que chama como eu?
Será que pergunta por mim?

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar...

sábado, 30 de junho de 2012

A distância é difícil quando é a única alternativa possível. 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

VAGO

Entrou e sentou-se. Não escolheu o assento, estavam todos vagos. Através da janela, na rua, as gotas invisíveis materializavam-se no contato com as poças e com o vidro, mas ele olhava para frente. Ou para baixo. Não que quisesse esconder o olhar de alguém: era o único no vagão. Apesar disso, o condutor demorou a partir. No vagido das rodas na lama, a solidão da sua noite ecoava, lento lamento. Vagara muito tempo (quanto tempo?) antes de decidir ir a algum lugar. E não sabia bem se decidira. Tudo era um pouco vago. Tudo era vago dentro e fora, o seu vazio, o vagão, o vagido, o vão. Vão vago que preenchia, que o preenchia, que o pilhava por dentro. Doía enquanto ele expirava o ar do tempo. Não sabia bem o que era. Olhava pro lado dava pela ausência de algo. Lembrava-se dum sorriso — vagamente — e sentia falta. Sentia que amargava. Sentia que amara — que amava! — e que no lugar estava um vago. Demorou muito para chegar a casa (aonde fora?). Demorou-se fora. Tinha muito o que pensar, mas não sabia como. Entrou e sentou-se. A casa vazia não lhe trazia conforto. Abraçou-se a si e deixou-se estar. Vagido. Vazio. Vago. Vão. Só. 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Quando olhas para os anos que passaram
e vês o que poderia ter sido,
O que talvez tivesse sido,
Se tivesses tido mais tempo,

Então, quando vier o dia da verdade,
Quem pode culpar-te se já não estiveres entre nós?
Tomaste o caminho mais longo para casa.



quarta-feira, 23 de maio de 2012

A CIDADE ARDE

Hi...
Já faz tempo que caminhas e não sentes doer os pés. Eu sei: já te sigo há um pouco. Olhas com teus olhos negros cansados e não me vês e passas adiante e te sigo mais um pouco. O que digo?

Que dizer? Quem teria dito antes de mim que um dia andaria atrás de ti, como quando um homem busca Deus, esta corrida não tem nexo, se o nexo já perdi atrás de ti. Queria-te. Queria te odiar um pouco sem nem menos te amar e queria te amar depois, sem nem menos te conhecer, enquanto a cidade arde em torno a nós. E nem me importo.

Hi...
Já faz tempo que caminhas e nem sentes que, enquanto a cidade arde, matas cada olhar com que cruzas. Eu sei: já te observo há um pouco. Mas, se te perdes nos meus teus próprios olhos cansados, e me iludes e passas adiante, talvez eu espere um pouco mais pra te dizer...

Quando dizer? Quem teria dito antes de mim que um dia perderia tempo atrás de ti como quando um homem busca Deus e não acha e enlouquece: enlouqueço se ficar ainda sem te ter. Queria te odiar um pouco sem nem menos te amar. E queria te amar...

Hi...
Já faz tempo que caminhas e nem me sentes que te sigo e te observo... E me matas. E nem me importo. Queria-te. Queria te amar.

Por que dizer? É como quando homem perde Deus: eu não quero compreender que no fundo cá não estás, e me agarro mais ao sonho meu. E assim te deixo passar adiante e findar os dias, os teus dias, na minha mente, do meu lado.

Hi... 
A cidade arde e tu, que dizes? Se eu te parar, se eu te falar, que é que dizes? Mas cá já não estás. Não mais.

terça-feira, 1 de maio de 2012

O ESPECTADOR


Vossas mãos parecem prender
Tão forte, a tua à dele,
Vossos olhos têm tanto a se dizer,
Que é estranho baixar os meus.

Vossos passos devoram a hora 
Ladrões do tempo que vem.
Cruzo a tua rua, e vejo-vos agora,
E seu amor cai-te bem...

É um crime que te espione?
Só diz respeito a mim!
Quem um dia amou me perdoe
Por não crer num tal fim.

Um inverno sobre mim a cair:
Como ver o amor que esgarça,
Quando alguém mais te abraça?

Um inverno sobre mim a cair:
Como ver o amor rasgar,
Quando se perdeu o lugar?

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Esperei que, se tivesse de ser, ao menos que valesse a pena.

domingo, 15 de abril de 2012

Na penumbra do corredor, entreouvi por uma fresta de porta a voz duma mulher que, de joelhos, sozinha, balbuciava com o rosto por detrás das mãos o pesar de um mundo inteiro. Cri sentir nessa melodia incompreensível o desespero de umas notas que só uma dor muito antiga faz ressoar. E pensei que talvez nem ela mais compreendesse o que chorava. No oco do que outrora quiçá tenha sido uma vida, essas lágrimas eram todo o seu quinhão, esse que já nem a confiança na proximidade do fim podia minguar. O que lhe restava era somente seguir o caminho. O mais estreito de todos.

sábado, 3 de março de 2012

  Era pra ser o teu dia.
  Costumava ser o teu dia.
  Nunca se sabe, mas quero que saibas:
  alguém te ama.



- Alguém que ainda te ama.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O SEGUNDO

Eu me ausentei tanto há, mas espero que tu me perdoes,
Bem que não mereço, agarrarei a chance que me does
Esse novo começo, prometo valê-lo:
Lograrei provar e vais vê-lo.
Agora eu estou bem, juro
Como já melhorei, juro.

Sabes, em tempos atrás, perseguiam gente até:
Oprimiam, prendiam, atavam-lhe o pé,
Com menores ofensas que as que te infligi.
Repetidamente, contudo, me perdoaste.
Ainda que punido, jamais saldarei o que adquiri:
Muitas dívidas que fiz e nada há que baste.

E agora eu morro para pagar,
Uma vez e outra mais.

Traz, pois os grilhões, ata-me os pés a âncora férrea;
Entrega-me ao mar, e vê se não vou erguer-me à terra. Por ti.

Acho que estive tão mal que saboreei tanta coisa ruim,
Muita da qual me sabia prender, sabia destruir tudo de mim,
Outras que me levaram aonde não devi ir.

Tanto que desperdicei o sinete da beleza,
Um anjo de graça sem fim.

Agora eu aprendi, juro.
Mas já melhorei, juro.
Antes não soube que sim,
Mas agora sei que é assim.
Eu descobri que é assim.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

TU E EU



Tu e eu, pra nós nunca foi fácil mesmo. Tínhamos que lapidar sempre mais. E a cada vez parecia estar feito, pra após desmoronar. E agora, uma noite a mais, eu penso nos meus tantos erros, e tento então mudar, perdoar todos pequenos mal-feitos e as coisas más de ti. E imagino se ainda pensarás em mim, e como o farás. Se a tentar achar o nosso ponto médio ou o ponto de fuga. Mas o amor é o que se faz dele e, disposto uma vez mais a tentar, inquieto-me porque não estás e nem quero dizer adeus. Tu e eu, pra nós nunca foi fácil mesmo. Ferimo-nos tanto já. Só o tempo dirá o que virá a ser, não há como prever. Mas eu queria tentar a sorte.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Pode ser esta noite quente a estrada aberta mesmo à nossa frente, e tu e eu a descobrir o ar: não é preciso correr, não é urgente chegar. O que é preciso é viver.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

PAZ

Num longo dia, tal qual este que acabo, tão atordoado, pouco dado a afeição, afeito a feitos sem razão, um sorriso salvou-me a alegria. E, com esse afeto no meu dia, apesar de todas as vicissitudes, solitudes tão populosas, glosas novas tão antigas, vou dormir feliz. Em paz. Paz pra mim. Paz pra Marte. Amém.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Pedem-me letras. Mas tudo o que consigo fazer são nuvens. Nuvens de vapor de saudade.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

E o espero por telefonar,
desejando que se vá lembrar,
com o coração no estômago,
lá no canto: um novelo só,
tão sozinho,
dentro um calafrio,
por que ele não está
e eu estou.
E a cada dia menos certezas
do que foi verdade.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

JOÃO DISSE

João disse "vai". João disse "vem".
João já se foi e eu também.
João disse "corre". João disse "anda".
Quanto mais corro, mais me cansa.
João disse "ama". João disse "vou".
Eu já o amei, nada mudou.
João disse "não". João disse "é".
Perdi a chance, a força e a fé.
João disse "amor". João disse "tem".
João não me deu, e eu fiquei sem.
João disse "vai". João disse "vem".
João não é meu, nem de ninguém.

domingo, 29 de janeiro de 2012


No fim do dia, ainda sentia o sabor dum beijo que quase faria crer que um futuro é possível.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Pôs um pouco de batom
E um leve toque de pintura;
Tirou do cabelo o travessão
E devolveu ao rosto a candura.

Saiu para a rua insegura,
Vagueou sem direção.
Sorriu a um homem com tremura
E sentiu escorrer do coração
A humidade quente da loucura...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

LEMBRA DE MIM

Triste e frio breu,
ermo de mundo meu.
Ondas a espumar
vêm meus pés tocar.
Perdidos rincões:
procuro-me em canções,
melodias que escrevi
de letras que esqueci...

Lembra de mim,
meu ega cobre-se de ai.
Se alguém me vir,
ver o que vês não vai.
Preciso-te cá,
a neve cobriu o verão.
Que o tempo é voraz
e eu não muito são.

E minha asa e coração
já em vão a se romper.
Assim eu vou
e mais estou
a esperança a verter.

Quão veloz se vai,
no nebuloso céu,
lágrimas demais
por luz que já não é.
Eu temo temer
e sangro-me de mim
por gotas a cair
que o vento vai colher.

Lembra de mim,
que Zéfiro me corta,
quando a sorrir
o ocaso não se importa.
O medo é meu lar,
coragem dissolveu-se.
Restava um mar,
se não se despedisse.

E eu começo a naufragar;
junto a mim tu não estás.
E tenho frio
e tenho brio:
meus rogos vão te achar?

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Mentiste sobre o amor também?



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

NÓS E ATAS

A chuva cai e lava tudo. Apaga dos meus ossos toda carne que me é espúria, todo cheiro que me é externo. Cai a chuva e tudo cai. E resvalo sobre a água, suja tudo suja água que a ti não importa. Refresca-te. Essa minha água suja, essa chuva, a que serve? De que serve ficar longe em silêncio a olhar a nossa paixão que morre num canto e não sai de nós. Não sabe mais a nós. E em nós atado sob a chuva tudo cala, e sinto dentro em mim estranha paz. A chuva cai e essa paz é só água suja em cinza escura, fumegando o frio do vácuo da ausência dum abraço que não quero que me falte, mas me falta. Tua falta. E à falta tua, a que serve punir-me? De que serve ficar longe em silêncio a olhar a nossa paixão que morre num canto e não sai de mim. Não sabe de mim. E de que serve esperar, se chove e não sentes dor como esta minha carne que morre, que perde a cor, que perde o teu cheiro, lavado na chuva. Mas que sentido há em chorar, eu que nem sei da minha carne, tão suja, tão suja da chuva que cai. E caio de novo. Sim, mas não me proíbes mais nada. Nunca mais nada. Antes, volta à tua lama, ao charco. Mas volta... E diz-me de que me serve a nossa paixão que não morre, não morre, só muda de cores e cheiros, e dores maiores. E por que eu fico a esperar-te? Se chove e não sentes mais nada dessa minha carne, que é branca que se recusa à cor. A minha carne está em branco pro teu conto, escreve tu o fim. Eu já acabei. Não quero mais estar à beira da nossa vida, a olhar em paz como ela finda em nuvens que passam e descarregam chuva como pedras. E a cada passo a sós esquecemos nós os nossos. Nossos ossos já sem carne à beira da estrada que trilhamos juntos, lançando sobre a pedra uma semente que os pássaros comeram, a matar-nos toda noite após a raiva, em gotas de chuva quente sobre areia estéril. Amor, meu amor, essa paixão passada, como fome para um leão depois de devorada a sua presa e abandonados os ossos aos pássaros comerem, não te lembras, mas éramos nós. Atados, pelos braços, sob a chuva, enquanto todos corriam atrás de abrigo. E o que fora chama, hoje é cinza, é só cinza, como um dia de chuva cujo trovão é só um tênue batimento cardíaco e cujo raio sem barulho ilumina tudo em branco, como a minha carne pro teu conto. Escreve tu o fim. Eu já acabei.

domingo, 22 de janeiro de 2012

COMO SE FAZ

E desde já somos postos à prova: comichão do sétimo ano que veio primeiro. Nada podia ter sido tão melhor, nada podia ser tão pior. Talvez seja para o bem de nós dois, dizem fazer bem à pele, dar-lhe um aspeto brilhoso. Mas será que vale a dor em que nos mete?
E agora, que diabos foi feito de nós? Às vezes não sei o que sei. Se eu me for, pra onde irei? E pra dizê-lo, quem tem a coragem?
Como se faz pra dizer adeus, se antes mesmo, amor meu, eis-me na tua cabeça, eis-te no meu coração? Que triste jeito de partirmos! Como se dá a tudo um fim, dessa suja rusga à qual tendemos?
Como é que eu odeio? Como é que tu machucas? Por que me calcas sob os pés? Como é que agrides, como é que desdenho? Como pudeste pra mim fechar os punhos? Como seguiremos caminhos diferentes? A quanto amor dissemos "não"?

sábado, 21 de janeiro de 2012

Sabeis o que mais dói? É não conseguir odiar.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Fitando estrelas que outrora me adormeceram, relembro dias há muito findos e reparo que ainda não escrevi uma canção pros meus quinze anos, de fogueiras acesas em noite quente, quando o mar lembrava o céu. Ou o que é pior: revisito todas as minhas palavras perdidas e frases não escritas, cada uma das rosas pelas quais suportei espinhos. E penso que os supostos encantos de liberdade são tudo o que eu nunca esqueci.

Uma vez eu velho, ninguém mais precisa me dar beijos nem adeuses. Eu saberei que ainda me restam vontades, mas vai me faltar alguém que as entenda.



quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

FILOSOFIA DE MESA

Fiquemos pois pela natureza. Nós estamos no topo; temos a filosofia superior. A que serve estar no alto, se não se vê mais longe que a ponta do nariz dos outros? Vivamos alegremente. A vida é tudo. Que o homem tenha um outro porvir, alhures, lá em cima, lá embaixo, em qualquer lado, eu não creio num til. Ah! Recomendam-me o sacrifício e a renúncia, eu devo tomar cuidado com tudo o que faço, tenho que quebrar a cabeça com o bem e o mal, com o justo e o injusto, com o fas e o nefas. Por quê? Porque terei de dar conta das minhas ações. Quando? Após a minha morte. Que belo sonho! Após a minha morte, boa sorte a quem me tentar levar a juízo. Tentem lá então apanhar um punhado de cinzas com uma mão de sombra. Digamos a verdade, nós que somos iniciados e que levantámos a saia de Ísis: não há nem bem nem mal; só há vegetação. Busquemos o real. Cavemos de fato. Vamos ao fundo, diabos! Há que farejar a verdade, foçar abaixo da terra e apanhá-la. Então ela lhe dá alegrias profusas. Então você se torna forte, e você ri. Eu tenho os pés no chão. A imortalidade do homem é uma conversa das carochas. Ah! que charmosa promessa! Agora confie-se. Que bom bilhete que tem Adão! É alma, será anjo, terá asas azuis nos omoplatas. Não é Tertuliano quem diz que os felizardos irão saltando de um astro ao outro? Que ótimo, vamos ser gafanhotos das estrelas. E depois, vamos ver Deus, tá-tá-tá-tá... Que sandices, todos esses paraísos. Deus é uma patranha monstruosa. Eu não diria isso em público, entenda. Mas sussurro entre amigos. Inter pocula. Sacrificar a Terra pelo Paraíso é soltar a presa pela sombra. Ser palerma do infinito! Não sou besta. Eu sou o nada. Chamo-me Senhor Senador Conde do Nada, muito prazer. Eu existia antes do meu nascimento? Não. Existirei após a minha morte? Não. O que sou eu? Um pouco de pó agregado num organismo. O que tenho eu a fazer nesta Terra? Eu escolho entre sofrer ou fruir. Aonde me levará o sofrimento? Ao nada. Mas terei sofrido. Aonde me levará a fruição? Ao nada. Mas terei fruído. A minha escolha está feita. Deve-se devorar ou ser devorado. Eu devoro. Melhor ser dente a ser grama. Essa é a minha cordura. Depois, de todo jeito, o coveiro lá está, o Panteão para nós outros, tudo cai no grande buraco. Fim. Finis. Liquidação total. Esse é o lugar do esquecimento. A morte é morta, acredite. Que haja alguém que tenha qualquer coisa a me dizer sobre ela, eu rio só de imaginar. Invenção de cabulice. Historinha para as crianças, Jeová para os homens. Não; o nosso amanhã é noite. Para além da tumba, não há senão nadas iguais. Essa é a verdade. Então viva, acima de tudo. Use do seu eu enquanto o tem.