domingo, 29 de janeiro de 2012


No fim do dia, ainda sentia o sabor dum beijo que quase faria crer que um futuro é possível.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Pôs um pouco de batom
E um leve toque de pintura;
Tirou do cabelo o travessão
E devolveu ao rosto a candura.

Saiu para a rua insegura,
Vagueou sem direção.
Sorriu a um homem com tremura
E sentiu escorrer do coração
A humidade quente da loucura...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

LEMBRA DE MIM

Triste e frio breu,
ermo de mundo meu.
Ondas a espumar
vêm meus pés tocar.
Perdidos rincões:
procuro-me em canções,
melodias que escrevi
de letras que esqueci...

Lembra de mim,
meu ega cobre-se de ai.
Se alguém me vir,
ver o que vês não vai.
Preciso-te cá,
a neve cobriu o verão.
Que o tempo é voraz
e eu não muito são.

E minha asa e coração
já em vão a se romper.
Assim eu vou
e mais estou
a esperança a verter.

Quão veloz se vai,
no nebuloso céu,
lágrimas demais
por luz que já não é.
Eu temo temer
e sangro-me de mim
por gotas a cair
que o vento vai colher.

Lembra de mim,
que Zéfiro me corta,
quando a sorrir
o ocaso não se importa.
O medo é meu lar,
coragem dissolveu-se.
Restava um mar,
se não se despedisse.

E eu começo a naufragar;
junto a mim tu não estás.
E tenho frio
e tenho brio:
meus rogos vão te achar?

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Mentiste sobre o amor também?



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

NÓS E ATAS

A chuva cai e lava tudo. Apaga dos meus ossos toda carne que me é espúria, todo cheiro que me é externo. Cai a chuva e tudo cai. E resvalo sobre a água, suja tudo suja água que a ti não importa. Refresca-te. Essa minha água suja, essa chuva, a que serve? De que serve ficar longe em silêncio a olhar a nossa paixão que morre num canto e não sai de nós. Não sabe mais a nós. E em nós atado sob a chuva tudo cala, e sinto dentro em mim estranha paz. A chuva cai e essa paz é só água suja em cinza escura, fumegando o frio do vácuo da ausência dum abraço que não quero que me falte, mas me falta. Tua falta. E à falta tua, a que serve punir-me? De que serve ficar longe em silêncio a olhar a nossa paixão que morre num canto e não sai de mim. Não sabe de mim. E de que serve esperar, se chove e não sentes dor como esta minha carne que morre, que perde a cor, que perde o teu cheiro, lavado na chuva. Mas que sentido há em chorar, eu que nem sei da minha carne, tão suja, tão suja da chuva que cai. E caio de novo. Sim, mas não me proíbes mais nada. Nunca mais nada. Antes, volta à tua lama, ao charco. Mas volta... E diz-me de que me serve a nossa paixão que não morre, não morre, só muda de cores e cheiros, e dores maiores. E por que eu fico a esperar-te? Se chove e não sentes mais nada dessa minha carne, que é branca que se recusa à cor. A minha carne está em branco pro teu conto, escreve tu o fim. Eu já acabei. Não quero mais estar à beira da nossa vida, a olhar em paz como ela finda em nuvens que passam e descarregam chuva como pedras. E a cada passo a sós esquecemos nós os nossos. Nossos ossos já sem carne à beira da estrada que trilhamos juntos, lançando sobre a pedra uma semente que os pássaros comeram, a matar-nos toda noite após a raiva, em gotas de chuva quente sobre areia estéril. Amor, meu amor, essa paixão passada, como fome para um leão depois de devorada a sua presa e abandonados os ossos aos pássaros comerem, não te lembras, mas éramos nós. Atados, pelos braços, sob a chuva, enquanto todos corriam atrás de abrigo. E o que fora chama, hoje é cinza, é só cinza, como um dia de chuva cujo trovão é só um tênue batimento cardíaco e cujo raio sem barulho ilumina tudo em branco, como a minha carne pro teu conto. Escreve tu o fim. Eu já acabei.

domingo, 22 de janeiro de 2012

COMO SE FAZ

E desde já somos postos à prova: comichão do sétimo ano que veio primeiro. Nada podia ter sido tão melhor, nada podia ser tão pior. Talvez seja para o bem de nós dois, dizem fazer bem à pele, dar-lhe um aspeto brilhoso. Mas será que vale a dor em que nos mete?
E agora, que diabos foi feito de nós? Às vezes não sei o que sei. Se eu me for, pra onde irei? E pra dizê-lo, quem tem a coragem?
Como se faz pra dizer adeus, se antes mesmo, amor meu, eis-me na tua cabeça, eis-te no meu coração? Que triste jeito de partirmos! Como se dá a tudo um fim, dessa suja rusga à qual tendemos?
Como é que eu odeio? Como é que tu machucas? Por que me calcas sob os pés? Como é que agrides, como é que desdenho? Como pudeste pra mim fechar os punhos? Como seguiremos caminhos diferentes? A quanto amor dissemos "não"?

sábado, 21 de janeiro de 2012

Sabeis o que mais dói? É não conseguir odiar.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Fitando estrelas que outrora me adormeceram, relembro dias há muito findos e reparo que ainda não escrevi uma canção pros meus quinze anos, de fogueiras acesas em noite quente, quando o mar lembrava o céu. Ou o que é pior: revisito todas as minhas palavras perdidas e frases não escritas, cada uma das rosas pelas quais suportei espinhos. E penso que os supostos encantos de liberdade são tudo o que eu nunca esqueci.

Uma vez eu velho, ninguém mais precisa me dar beijos nem adeuses. Eu saberei que ainda me restam vontades, mas vai me faltar alguém que as entenda.



quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

FILOSOFIA DE MESA

Fiquemos pois pela natureza. Nós estamos no topo; temos a filosofia superior. A que serve estar no alto, se não se vê mais longe que a ponta do nariz dos outros? Vivamos alegremente. A vida é tudo. Que o homem tenha um outro porvir, alhures, lá em cima, lá embaixo, em qualquer lado, eu não creio num til. Ah! Recomendam-me o sacrifício e a renúncia, eu devo tomar cuidado com tudo o que faço, tenho que quebrar a cabeça com o bem e o mal, com o justo e o injusto, com o fas e o nefas. Por quê? Porque terei de dar conta das minhas ações. Quando? Após a minha morte. Que belo sonho! Após a minha morte, boa sorte a quem me tentar levar a juízo. Tentem lá então apanhar um punhado de cinzas com uma mão de sombra. Digamos a verdade, nós que somos iniciados e que levantámos a saia de Ísis: não há nem bem nem mal; só há vegetação. Busquemos o real. Cavemos de fato. Vamos ao fundo, diabos! Há que farejar a verdade, foçar abaixo da terra e apanhá-la. Então ela lhe dá alegrias profusas. Então você se torna forte, e você ri. Eu tenho os pés no chão. A imortalidade do homem é uma conversa das carochas. Ah! que charmosa promessa! Agora confie-se. Que bom bilhete que tem Adão! É alma, será anjo, terá asas azuis nos omoplatas. Não é Tertuliano quem diz que os felizardos irão saltando de um astro ao outro? Que ótimo, vamos ser gafanhotos das estrelas. E depois, vamos ver Deus, tá-tá-tá-tá... Que sandices, todos esses paraísos. Deus é uma patranha monstruosa. Eu não diria isso em público, entenda. Mas sussurro entre amigos. Inter pocula. Sacrificar a Terra pelo Paraíso é soltar a presa pela sombra. Ser palerma do infinito! Não sou besta. Eu sou o nada. Chamo-me Senhor Senador Conde do Nada, muito prazer. Eu existia antes do meu nascimento? Não. Existirei após a minha morte? Não. O que sou eu? Um pouco de pó agregado num organismo. O que tenho eu a fazer nesta Terra? Eu escolho entre sofrer ou fruir. Aonde me levará o sofrimento? Ao nada. Mas terei sofrido. Aonde me levará a fruição? Ao nada. Mas terei fruído. A minha escolha está feita. Deve-se devorar ou ser devorado. Eu devoro. Melhor ser dente a ser grama. Essa é a minha cordura. Depois, de todo jeito, o coveiro lá está, o Panteão para nós outros, tudo cai no grande buraco. Fim. Finis. Liquidação total. Esse é o lugar do esquecimento. A morte é morta, acredite. Que haja alguém que tenha qualquer coisa a me dizer sobre ela, eu rio só de imaginar. Invenção de cabulice. Historinha para as crianças, Jeová para os homens. Não; o nosso amanhã é noite. Para além da tumba, não há senão nadas iguais. Essa é a verdade. Então viva, acima de tudo. Use do seu eu enquanto o tem.