quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

FILOSOFIA DE MESA

Fiquemos pois pela natureza. Nós estamos no topo; temos a filosofia superior. A que serve estar no alto, se não se vê mais longe que a ponta do nariz dos outros? Vivamos alegremente. A vida é tudo. Que o homem tenha um outro porvir, alhures, lá em cima, lá embaixo, em qualquer lado, eu não creio num til. Ah! Recomendam-me o sacrifício e a renúncia, eu devo tomar cuidado com tudo o que faço, tenho que quebrar a cabeça com o bem e o mal, com o justo e o injusto, com o fas e o nefas. Por quê? Porque terei de dar conta das minhas ações. Quando? Após a minha morte. Que belo sonho! Após a minha morte, boa sorte a quem me tentar levar a juízo. Tentem lá então apanhar um punhado de cinzas com uma mão de sombra. Digamos a verdade, nós que somos iniciados e que levantámos a saia de Ísis: não há nem bem nem mal; só há vegetação. Busquemos o real. Cavemos de fato. Vamos ao fundo, diabos! Há que farejar a verdade, foçar abaixo da terra e apanhá-la. Então ela lhe dá alegrias profusas. Então você se torna forte, e você ri. Eu tenho os pés no chão. A imortalidade do homem é uma conversa das carochas. Ah! que charmosa promessa! Agora confie-se. Que bom bilhete que tem Adão! É alma, será anjo, terá asas azuis nos omoplatas. Não é Tertuliano quem diz que os felizardos irão saltando de um astro ao outro? Que ótimo, vamos ser gafanhotos das estrelas. E depois, vamos ver Deus, tá-tá-tá-tá... Que sandices, todos esses paraísos. Deus é uma patranha monstruosa. Eu não diria isso em público, entenda. Mas sussurro entre amigos. Inter pocula. Sacrificar a Terra pelo Paraíso é soltar a presa pela sombra. Ser palerma do infinito! Não sou besta. Eu sou o nada. Chamo-me Senhor Senador Conde do Nada, muito prazer. Eu existia antes do meu nascimento? Não. Existirei após a minha morte? Não. O que sou eu? Um pouco de pó agregado num organismo. O que tenho eu a fazer nesta Terra? Eu escolho entre sofrer ou fruir. Aonde me levará o sofrimento? Ao nada. Mas terei sofrido. Aonde me levará a fruição? Ao nada. Mas terei fruído. A minha escolha está feita. Deve-se devorar ou ser devorado. Eu devoro. Melhor ser dente a ser grama. Essa é a minha cordura. Depois, de todo jeito, o coveiro lá está, o Panteão para nós outros, tudo cai no grande buraco. Fim. Finis. Liquidação total. Esse é o lugar do esquecimento. A morte é morta, acredite. Que haja alguém que tenha qualquer coisa a me dizer sobre ela, eu rio só de imaginar. Invenção de cabulice. Historinha para as crianças, Jeová para os homens. Não; o nosso amanhã é noite. Para além da tumba, não há senão nadas iguais. Essa é a verdade. Então viva, acima de tudo. Use do seu eu enquanto o tem.

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