segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

NÓS E ATAS

A chuva cai e lava tudo. Apaga dos meus ossos toda carne que me é espúria, todo cheiro que me é externo. Cai a chuva e tudo cai. E resvalo sobre a água, suja tudo suja água que a ti não importa. Refresca-te. Essa minha água suja, essa chuva, a que serve? De que serve ficar longe em silêncio a olhar a nossa paixão que morre num canto e não sai de nós. Não sabe mais a nós. E em nós atado sob a chuva tudo cala, e sinto dentro em mim estranha paz. A chuva cai e essa paz é só água suja em cinza escura, fumegando o frio do vácuo da ausência dum abraço que não quero que me falte, mas me falta. Tua falta. E à falta tua, a que serve punir-me? De que serve ficar longe em silêncio a olhar a nossa paixão que morre num canto e não sai de mim. Não sabe de mim. E de que serve esperar, se chove e não sentes dor como esta minha carne que morre, que perde a cor, que perde o teu cheiro, lavado na chuva. Mas que sentido há em chorar, eu que nem sei da minha carne, tão suja, tão suja da chuva que cai. E caio de novo. Sim, mas não me proíbes mais nada. Nunca mais nada. Antes, volta à tua lama, ao charco. Mas volta... E diz-me de que me serve a nossa paixão que não morre, não morre, só muda de cores e cheiros, e dores maiores. E por que eu fico a esperar-te? Se chove e não sentes mais nada dessa minha carne, que é branca que se recusa à cor. A minha carne está em branco pro teu conto, escreve tu o fim. Eu já acabei. Não quero mais estar à beira da nossa vida, a olhar em paz como ela finda em nuvens que passam e descarregam chuva como pedras. E a cada passo a sós esquecemos nós os nossos. Nossos ossos já sem carne à beira da estrada que trilhamos juntos, lançando sobre a pedra uma semente que os pássaros comeram, a matar-nos toda noite após a raiva, em gotas de chuva quente sobre areia estéril. Amor, meu amor, essa paixão passada, como fome para um leão depois de devorada a sua presa e abandonados os ossos aos pássaros comerem, não te lembras, mas éramos nós. Atados, pelos braços, sob a chuva, enquanto todos corriam atrás de abrigo. E o que fora chama, hoje é cinza, é só cinza, como um dia de chuva cujo trovão é só um tênue batimento cardíaco e cujo raio sem barulho ilumina tudo em branco, como a minha carne pro teu conto. Escreve tu o fim. Eu já acabei.

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