sexta-feira, 29 de junho de 2012

VAGO

Entrou e sentou-se. Não escolheu o assento, estavam todos vagos. Através da janela, na rua, as gotas invisíveis materializavam-se no contato com as poças e com o vidro, mas ele olhava para frente. Ou para baixo. Não que quisesse esconder o olhar de alguém: era o único no vagão. Apesar disso, o condutor demorou a partir. No vagido das rodas na lama, a solidão da sua noite ecoava, lento lamento. Vagara muito tempo (quanto tempo?) antes de decidir ir a algum lugar. E não sabia bem se decidira. Tudo era um pouco vago. Tudo era vago dentro e fora, o seu vazio, o vagão, o vagido, o vão. Vão vago que preenchia, que o preenchia, que o pilhava por dentro. Doía enquanto ele expirava o ar do tempo. Não sabia bem o que era. Olhava pro lado dava pela ausência de algo. Lembrava-se dum sorriso — vagamente — e sentia falta. Sentia que amargava. Sentia que amara — que amava! — e que no lugar estava um vago. Demorou muito para chegar a casa (aonde fora?). Demorou-se fora. Tinha muito o que pensar, mas não sabia como. Entrou e sentou-se. A casa vazia não lhe trazia conforto. Abraçou-se a si e deixou-se estar. Vagido. Vazio. Vago. Vão. Só. 

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