terça-feira, 24 de julho de 2012

לא

Era a mesma criança — os mesmos ombros frágeis cor de mel, as mesmas costas nuas, sedosas e flexíveis e a mesma cabeleira escura. A fina camisa ocultava dos meus olhos de macaco a envelhecer, mas não dos da memória, o torso moço que eu acariciara certo dia imortal. Reconheci o pequeno sinal castanho-escuro diante da sua orelha. Reverente e deleitado, relanceei num seu movimento o encantador abdômen retraído, onde a minha boca, em demanda de regiões mais ao sul, se detivera brevemente, e aquelas ancas infantis, onde beijara a marca crenulada deixada pelo elástico dos calções, naquele derradeiro, louco e imortal dia. Os tantos dias que vivera desde então afuselaram-se até formarem um ponto palpitante e desapareceram. 

Tenho muita dificuldade em exprimir com a força adequada aquele clarão, aquele arrepio, o impacto do reconhecimento apaixonado. No decorrer do momento em que o meu olhar deslizou pela criança deitada (os seus olhos felinos piscavam singelos) — eu no meu disfarce de adulto (um grande e bonito pedaço de virilidade cinematográfica) — o vácuo da minha alma conseguiu aspirar todos os pormenores da sua luminosa beleza. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012



Sempre pensei se, na minha hora mais negra e no meu desespero mais profundo, te ias fazer presente, se te ias importar com o meu juízo e a minha tribulação, quando eu passasse pela dúvida, pela frustração, pela turbulência, pelo medo, pela angústia, pela dor e pela tristeza. Eu esperei que me reconfortasses com a esperança de um amanhã. Eu esperei.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

OS MELHORES ENGODOS

Ouvi sobre a sua noite. Vi as fotografias. Contaram-me das suas conquistas, interessantes para alguém que estava somente à espera. Soube do tempo, do ar, da festa, dos rapazes com quem os fruiu. E pensei que devesse tê-lo ouvido de si.

Vejo que agora acabou o fingimento. Mas todos os prêmios de Os Melhores Engodos e O Melhor Conto da Carochinha vão para você. Mas calma, o mundo dá voltas, eu sei que sim, um dia. E então os seus beijos, que relatam os lábios de outras pessoas, serão úteis para manter a sua distância.

Aguardo que o sangue reflua pelos meus dedos: ficarei bem quando as minhas mãos se reaquecerem. Ignoro o telefone. Prefiro não dizer nada. Prefiro que não ouça mais a minha voz. Você ligou tarde demais para causar alguma simpatia. Você ligou tarde demais.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Onde estará o meu amor?
Será que vela como eu?
Será que chama como eu?
Será que pergunta por mim?

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar...