terça-feira, 24 de julho de 2012

לא

Era a mesma criança — os mesmos ombros frágeis cor de mel, as mesmas costas nuas, sedosas e flexíveis e a mesma cabeleira escura. A fina camisa ocultava dos meus olhos de macaco a envelhecer, mas não dos da memória, o torso moço que eu acariciara certo dia imortal. Reconheci o pequeno sinal castanho-escuro diante da sua orelha. Reverente e deleitado, relanceei num seu movimento o encantador abdômen retraído, onde a minha boca, em demanda de regiões mais ao sul, se detivera brevemente, e aquelas ancas infantis, onde beijara a marca crenulada deixada pelo elástico dos calções, naquele derradeiro, louco e imortal dia. Os tantos dias que vivera desde então afuselaram-se até formarem um ponto palpitante e desapareceram. 

Tenho muita dificuldade em exprimir com a força adequada aquele clarão, aquele arrepio, o impacto do reconhecimento apaixonado. No decorrer do momento em que o meu olhar deslizou pela criança deitada (os seus olhos felinos piscavam singelos) — eu no meu disfarce de adulto (um grande e bonito pedaço de virilidade cinematográfica) — o vácuo da minha alma conseguiu aspirar todos os pormenores da sua luminosa beleza. 

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