sexta-feira, 26 de outubro de 2012

ALGO INOMINÁVEL

    Exatamente por que isso teve de acontecer, por que devia acontecer com ele, ele não teria hipótese de dizer como. Nem talvez jamais lhe pudesse ocorrer de procurar uma razão. Nem era nada ao certo, só uma ideia. E por que teria virado tão maravilhosa, tão permanente pra ele, esse era o mistério. Era prazeroso, disparatado, até. Mas, acima de tudo, isso era um segredo: algo a ser preciosamente escondido. Era como se, dum jeito deleitoso, o seu segredo lhe desse uma fortaleza, um muro detrás do qual ele pudesse retirar-se em reclusão paradisíaca. Tudo o que ele precisava fazer era pensar naquela manhã. A primeira manhã. E então em todas as outras.
    Fora um momentinho antes de ele acordar, ou talvez no próprio momento, que acontecera. Bizarro. Foi o efeito que essa nova descoberta teve nele. Durante toda a manhã seguinte manteve-se nele uma sensação que lhe caía ao redor. Uma tela secreta entre ele e o mundo. Se ele não tivesse sonhado uma tal coisa – e como ele podia ter sonhado enquanto acordado? – como alguém podia explicar? Ele já não lembrava se foi só na terceira ou na segunda (ou foi na quarta?) manhã que lhe repararam uma certa estranheza no jeito.
    Foi na terceira ou na quarta manhã? Ou quiçá na quinta ou na sexta? Ele já não conseguia lembrar exatamente quando o delicioso progresso começara a clarear. Tudo o que ele sabia era que, em algum ponto, a presença se tornou mais insistente. Quando ele descobria a cada manhã, ao ir à janela, que nada fazia diferença no mundo exterior. Era precisamente o que ele esperava. Era até mesmo o que lhe dava prazer, o que o recompensava.
    Como se podia explicar? Seria prudente explicar? Não lhe traria algum tipo obscuro de problema? E como pôr em palavras o que estava além delas?
    Às vezes efetivamente doía-lhe a vontade de contar a todos sobre tudo. Mas aí voltava a noção do misterioso poder do segredo. Não, ele devia manter o silêncio. Isso ficava mais e mais claro.
    Algo pulsava no fundo da sua mente, algo inominável, algo deliciosamente assombroso. Algo que o esperava, que dizia: “quando estivermos a sós, vou te contar algo novo, algo frio, algo sonolento, algo pacificador. No teu quarto, eu vou te contar uma história. A última, a mais linda, a mais secreta história. Uma que fica cada vez menor. Como uma flor que vira semente. Vou circundar a tua cama, vou barricar a porta e ninguém nunca mais poderá perturbar-nos. Nesta alva escuridão, nós substitituiremos tudo o mais.”

10 comentários:

Anónimo disse...

Queria poder livrá-lo de seu monstro, mas pelo que vejo sente-se mais seguro com ele do que com a liberdade. Não o culpo, segredos por mais amargos que sejam são reconfortantes.

A.

M disse...

Você não gostaria de me libertar de nada. Se quisesse, já o teria tentado. E os dois últimos textos não são sobre o mesmo assunto.

Anónimo disse...

Perdoe-me se não consigo acompanhar seus pensamentos, talvez o fato de não ‘convivermos’ seja um dos motivos que me fazem não adivinhar quando o texto é sobre você ou sobre outro alguém. Perdoe-me também por não demonstrar com tamanha veemência que te quero do meu lado, na verdade eu estou lá, sorrindo pra você, esperando que perceba minha mão estendida esperando a sua, mas tem tanta gente a sua volta que é difícil me aproximar.

A.

M disse...

Realmente me pergunto que tantas pessoas são essas à minha volta.

Anónimo disse...

Talvez, quando você parar de venerar a si próprio, consiga ver a muralha que foi construída a sua volta.

A.

M disse...

Infelizmente, não vou parar: é o meu desporto favorito. Mas, se você tentasse, veria que não há muralha, é só uma ilusão para espantar os credores. =)

Anónimo disse...

Não tens medo de cair em frustração, caso teu pedido venha a ser atendido?

A.

Anónimo disse...

Que inusitado isso nos comentários de um blog! Não pensei que blogs pessoais ainda tinham "audiência" assídua! Esse "A" é uma onda! hehe Mark, não sabia que você... deixa pra lá. A propósito, texto muito bom, gostei!

Anónimo disse...

Ainda tem coragem de dizer que é só e não existe uma muralha a sua volta? Faz-me rir. E só para fins de registro é ‘Essa’ não ‘Esse’.

M disse...

Eu não sei quem é nenhum de vocês mesmo, então, como é que eu posso ser responsabilizado por qualquer coisa? =) Mas fico feliz por ter tamanha audiência imiscuindo-se nos meus pensamentos: faz-me sentir importante.