terça-feira, 30 de outubro de 2012

VERÁS

Eu e os meus olhos escuros crescemos juntos com uma alma cheia de manias. E vivemos uma vida à procura de um lugar que não existe entre mil manhãs frescas sem automóveis e mais mil ocasos através de janelas e uma fome de sorrisos e braços em torno de mim.

E eu, entre as cassetes e os discos e os endereços que perdi e as lembranças que esqueci, vi rostos e vozes de quem amei antes ou depois de ir embora. Respirei sob mares desconhecidos em praias largas e vazias de um verão citadino ao lado da minha sombra, longa de melancolia.

Eu e as minhas tantas noites trancadas como o fechar de um guardachuva, com o rosto sobre o resto, dedos lentos lendo dores e traumas, caminhamos por ruas curvas que seguem o vento e, dentro, uma sensação de inutilidade que, frágil e violenta, me disse: verás. Verás. Fazendo estrada verás e encontrarás um gancho em meio ao céu e sentirás na estrada fazer bater o coração, e verás.

Sou pequeno entre tanta gente que há no mundo e sonhei com um comboio que jamais partiu. Corri em meio a prados brancos de lua para agarrar ainda um dia a minha ingenuidade e, jovem e envelhecido, disse-me: verás. Verás que uma canção pode mudar a vida e fazer seguir adiante e dizer que não é finda e, entre destroços de coração, fazer cantar outra vez o amor, pra que amanhã seja melhor. Verás.


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