terça-feira, 31 de dezembro de 2013

DESEJO

Desejo-vos desejos. Muitos. Vontades inconsumadas. Necessidades que rogam, abstinência doloridas. Desejo-vos muitos desejos, sem os quais seria debalde prosseguir. É a falta que nos empurra, a busca pelo que não há perfaz-nos em nossos anseios, definem-nos no que queremos e, por isso, no que somos. Portanto, desejai, amigos, desejai. Desejai o que não tendes, cobiçai o que se vos ausenta. E, quem sabe, na procura encontrareis o sentido para tudo.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

FRAGMENTO / SENTIMENTO

Um pouco timidamente os óculos tiraste pra me ver melhor depois de tantas voltas dadas ao mundo, pelo mundo, rodear a Terra e passear por ela. Senti que tu sentias que mudei e mudaste e, em me abraçando, tanto te maravilhaste que eu ainda fosse triste e que paz não encontrasse, mesmo desde há tempo que não te havia abraçado, e naquele silêncio eu disse baixo:
"Sinto muito".
Mas foi bastante pra um sussurro escondido fazer chorar, fazer lembrar e retornar àqueles dias antigos tão perdidos, quando em verão o céu se transformava em mar e eu escutava-te a meia-voz, à meia-luz, à meia-noite, sem sabermos ainda ser felizes.

domingo, 10 de novembro de 2013

TUDO POR FAZER

Às voltas num mundo em volta dum sol feito como eu, de chuviscos gentis dum fim que recomeça, um novo dia vem e vem-se, vai-se e vai deixando pelo caminho as pedras que apanhou, as flores que recebeu, as terras que abalou, os mares que embraveceu e desbravou, gastando poderes, horas preciosas, sob profundas areias, sobre altíssimas árvores. 
Noite adentro, de luar escuro, em volta duma lua feita como eu, de impactos e cicatrizes, de falta de ar e peso, à margem dos dias que insistem em erguer-se, de espaçonaves enviadas a lamber lábios negros, achar novas terras, novos mares, novos sonhos, procurei sem saber pra além das fronteiras do canto do meu olho.
E tudo permanece por fazer.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Eu só quero conversar, eu só quero te conhecer:
Dá-me um pouco do teu tempo pra te convencer.
Eu só quero ser teu amigo — e morro de vontade de sair contigo.

Dá-me um sinal, vá, dá-me lá uma olhada:
Se tu estás ao meu lado, a mim não me importa nada.
Já quero estar entre os teus braços — e morrendo por provar teus lábios.

sábado, 26 de outubro de 2013

NOTURNO 3

Dá-me a tua mão, eis que as trevas me sombreiam.
No teu peito eu descanse, se teus cuidados me rodeiam.
Mais queria, mas a noite me invade.
A morte, agora, é-me um hóspede bem-vindo.

Quando eu jazer na terra, que os meus erros não te turbem, não perturbem o teu peito.
Não te turvem, não te culpes, não preocupes o teu peito.
Apenas lembra de mim.
Lembra de mim.
E esquece o meu fado.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

NOTURNO 2

À beira abismal do sombrio mar de mal, eu chamo a meia-luz e o seu poder de fazer crer, fazer ser, o que quer que se queira, e da beira do abismo do meu abismado meio-peito, desnudado de couraça, coração aberto às surpresas do sereno, sereno-me a mente e confesso a minha alma: perdoa-me Pai, eu não pequei o suficiente para me arrepender.
Se já quase me assombra descobrir que meço amor em durações, vida em deceções, regra em exceções, eu decido e declino; aceito e sublinho. E agora que sei de todos os meus egos, todos os meus erros, eles punem-me mais, torturam-me tais quais ais apocalípticos, cais de navios em partida para nova terra, novo céu, e, surpresa, já não há mar. E já não há mar. Perdoa-me Pai, eu não pequei o suficiente.
Os meus erros há de cobrir o pó. No fim de tudo, hei de estar só, quando só houver meia-luz, e a luz eu expelir de mim, num último suspiro, e pelos meus olhos semicerrados, ainda na minha carne eu verei a vida. E assim a vida finda. E regozijo-me que não haverá mais surpresas. E atesourarei e acarinharei a ternura dos momentos que duram para sempre. Perdoa-me Pai, eu não pequei.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

NOTURNO 1

Mais uma noite havia chegado. Ele agora estava satisfeito em ir dormir, certo de que o sono, como na noite anterior, chegaria com seu doce abraço. Feitas então as coisas que devem ser feitas antes de dormir, deitou-se confortavelmente em sua cama (como poucas vezes em sua vida desconfortável) e ajeitou sua cabeça no travesseiro, que lhe pareceu mais fofo do que nunca. Dentro de poucos minutos (menos de sete), ele atravessou a porta entre o mundo dos que estão acordados e o universo daqueles que dormem (e sonham). Mas algo haveria de perturbar o seu tão esperado (e talvez merecido) descanso.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

RUAS E TRILHOS

Nas ruas que perdi, em que me perdi, dentro dos meus olhos negros de betume, cansados de tudo, feitos de nada, procuro mapas, fins, rotas, meios. Recomeços. Agora que te busco nas ruas, nas estações, em toda palavra que sei, em cada uma dita por engano por alguém que não sabe bem como passar a outra sorte, outros gêneros, outros ditos, outros dias, percebo-me menos. Repito-me, repito-me, repito-me, e já não pareço ter significado. Fui tantos, mas sempre torno a ser eu, de olhos pretos, de noites escuras, de almas impuras. A noite em mim é múltipla. E sinto a tua falta de tantas formas.
Eu vivo disperso nos subterrâneos destas semanas em que nada me resta dos instantes que me consomem o ventre. São recordações alojadas em fisiologias escusas, anatomias inadequadas, laços irrompíveis atados a cada dedo. O trilhos rugem um som de morte, o relógio urge estrondos que me atentam a paz, e ainda assim o tempo que transborda o meu cálice não passa de mim, mas antes foge em direção aos teus braços que nunca mais me envolverão do mesmo modo. Julguei que encontrara um canto pros meus olhos se fecharem indenes. Mas o meu lugar é um tempo que não volta mais.
E eu, que sou nada, vago indistinto, incerto nas trevas da noite destas ruas de betume como os meus olhos. O meu destino hoje me pesou, mediu e me achou em falta. E os túneis que me levam não me conduzem ao Elísio.
Pendura no espelho o meu retrato. Será, desde já, o único lugar onde me encontrarás como eu era. A minha pele narra a história de décadas difíceis. Os meus olhos contam anos perdidos, muito longos pra relatar. Os tempos me voltam, mas nunca os mesmos, o meu futuro é cíclico, o meu mundo sempre foi, mas dele sinto falta.
Ah! Se soubesses...

segunda-feira, 1 de julho de 2013

PARTIREI

Tomarei um barco e partirei: já não há nada, que eu sei, que aqui me detenha. Lançarei o sonho sobre as águas e depois de muitos dias o meu alento encontrarei. Sinto os ventos sibilantes quais sereias serpenteantes de alhures, de quão antes for, que me encantam para si, quão antes me for, e ainda que quisesse, que distante fosse, não lhes poderia resistir. E não irei. Mas irei. Ama-me, pois, enquanto não me for. 
Ama-me menos, ama-me um longo tempo. Ama-me enquanto não parti. De fato, é um caminho demasiado longo de qualquer lado de onde se vier para chegar aqui. Mas espero que o coração me baste pra levar tanta saudade, tanta esperança num bom fim, que o céu, no seu vazio populoso desse sempiterno gozo, já não me representa um sim. Ama-me agora. Ama-me como antes. Ama-me como nunca. 
E eu só peço que me guardes na memória, que te lembres toda a glória que me foste e que eu fui pra ti, e que agora que chegou a minha hora, que o instante me devora, e que nada sobra em mim, possas ter a paz que eu busco, navegando ao lusco-fusco de encontro ao que não existir. Partirei. Ama-me enquanto cá estou. Vais poder sentir a minha falta quando me for.

sábado, 29 de junho de 2013

DOS ESPELHOS

Minhas joias! Como me deixais bela! O que Salomão cantaria se tivesse visto isso? Podia pendurá-las nos mamilos, mas escandalizaria as crianças. Onde está o meu espelho? Não. Não consigo olhar... Viraria uma estátua de sal! Derrotada novamente: estou acabada desta vez. Mas da próxima vez, eu o apanho. Mal posso esperar. Ah, minhas joias! Estais aí! Meu consolo e companhia. Estamos presas por mais um ano. Por mais quatro estações. Que desolação! O trabalho de uma vida! É o século XXI e ainda somos uns bárbaros! E como deixamos isso claro! Nós somos os motivos de guerra: não é o poder histórico, nem os tempos, nem a justiça ou a falta dela, nem causas, nem religiões, nem tipos de governo, ou qualquer outra coisa. Somos nós os assassinos. Nós geramos a guerra. Carregamo-la como sífilis nas entranhas. Os mortos apodrecem nos campos quando os vivos já estão podres. Pelo amor de Deus, não podemos amar-nos uns aos outros? Só um pouco? É assim que a paz começa. Temos tantos motivos para nos amar! Temos tantas possibilidades... Podemos mudar o mundo! Acredita nisso. O mundo é o espelho de nós. Onde está o meu espelho? Poderei olhar? Ah, sim. Eu posso olhar para qualquer coisa. Vejamos... Meu Deus! Que menina linda. Como o seu rei foi capaz de deixá-la?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

LEMBRAS?

Eras amável antes. Lembras como me amavas? Andávamos sempre de mãos dadas. Era assim o que sentia. Lembras-te de que forma eu te ensinei os números, o alaúde e poesia? Vê, recordas-te. Ensinei-te danças e línguas e toda a música que eu sabia. E como amar o que é belo. O sol era então mais quente e passávamos os dias juntos.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

IMORTAIS

Eu creio que o amor é imortal.
Como é que pode ser imortal?
Sei lá, talvez porque o amor crie algo que não havia antes.
Como procriação? Como recreação?
Talvez só... criação.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

NINGUÉM COMO TU

Todos sabem que eu sou o corifeu dos que gostam de ficar a falar dos seus problemas, deprimindo toda a gente. Pode ser que seja estranho, mas até há poucos anos eu fechava-me de tudo. E tenho a noção de que sozinho não teria saído do casulo: lembro que aprendi que quando precisasse de ficar bem, procurasse refúgio em alguém. E mesmo quando não busquei, numa estranha forma de compensação, eu sei que sempre alguém me deu a passagem de volta pra mim.

O que dizer de gente assim?

Se eu falasse em termos de anjos ou enviados, pensariam em alguém que viesse de cajado na mão libertar as almas da opressão. Mas do que se trata é de um pouco de compreensão, de coisas que acontecem no dia a dia; de alguém que foi bom pra mim. De não haver alguém que me tenha sido tanto. De não haver ninguém como tu.
Ninguém como tu.
Ninguém como tu.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

OITAVO DIA

No oitavo dia, Deus, depois de tanto trabalhar,
Para liberar tensões duma sequência criacional,
Disse: "Tudo é muito bom. E é hora de descansar."
E se foi dar um passeio pelo espaço sideral.

Quem iria imaginar que o mesmo Deus, ao regressar,
Ia encontrar tudo numa desordem infernal,
E que se ia transformar num desempregado a mais,
Dessa taxa que anualmente está crescendo sem parar?

Desde então, há quem o haja visto
Só, pelas ruas, a transitar:
Anda esperando paciente por alguém
Com quem, ao menos, tranquilo
Possa conversar...

E se à falta de ocupação — ou excessiva solidão —
Deus não resistir e alhures vá lugar a procurar?
Seria a nossa perdição! Não haverá remédio que não
Adorar a Michael Jackson, a Bill Clinton, a Tarzã...

É mais difícil ser rei sem coroa
Que uma pessoa mais normal.
Pobre de Deus, que não sai em revista,
Não é modelo, nem artista,
Nem de família real.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

LAVA

Lava
      A minha memória suja nesse rio de lama.
      Lambe-a de mim, a lava que se derrama,
      E não deixes testemunho mudo
      De tudo
      Que me intriga
      E me fadiga.

Expulsa,
      Caça-a em mim, a predadora vil.
      E quando a tiveres na mira do fuzil,
      Não a escutes se te implorar:
      Sabes já
      Que ela deve morrer uma úlima morte.
      Não te importes.
      Mata-a.

Chora.
      Já o fiz antes, de nada me serviu:
      O pranto não apaga o mal que o olho viu.
      Eu tentei, eu tentei.
      Mas sei
      Do meu coração seco e da minh'alma estéril,
      E, sério,
      Irrompo.

Queima.
      Queimas quando te afundares no meu leito em riste.
      A minha cama derrete num calor sem entrave:
      E mais nada é triste,
      E mais nada é grave,
      Se tenho
      O teu corpo como uma torrente de lava:
      Minha memória suja no teu rio se lava.

domingo, 19 de maio de 2013

SE CEDER

E o sempre prudente filho das trevas calcula os próprios passos, acautela-se os movimentos, desvia o ônus e escapa ao laço, enquanto pode. Nunca indolente, teme a acescência potencial dos tempos e dos afetos: que lhe há de suceder, se ceder?

domingo, 12 de maio de 2013

DEVÍAMOS

devíamos amar com mais paciência
devíamos sangrar com menos violência
devíamos esperar com mais confiança
devíamos viver com menos medo

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Ele quis parar e parou. A vida levou-o na corrente, porque ele se deixou levar e foi.

terça-feira, 7 de maio de 2013

CALEI-ME

Calei-me. Sou um silêncio enquanto me ergo dessa estranha poltrona. Morrerei em breve. Ainda não agora. Estou vivo. E essa vida que ainda é será ainda mais quando os desígnios que medi forem acionados. É fácil mudar. Mudarei agora mesmo. Abro a porta e saio e levarei comigo essa reflexão tão abstrata quanto profunda. Tudo o que sei é o que sinto e sinto-me vivo de novo. São as últimas vezes, cada momento desses, cada respiração, cada vontade. E tenho vontade de existir. Então existo. Mas por quanto tempo?

segunda-feira, 6 de maio de 2013

ΑΝΤΙΝΟΜΙΑ

Que grande dor de tão fácil alívio. Que grande tristeza de tão largos sorrisos. Que grande problema de tão parcas avarias. Que grande solidão de tão frequentes companhias. Que grande vazio de tão simples preenchimento. Que grande amor de tão rápido esquecimento.

domingo, 5 de maio de 2013


Agora eu sinto tudo em mim: de ódio a amor, de amor a luxúria, de luxúria a verdade.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

ONÍRICO Nº 3

É que acordar é triste, mas dormir é pena. E a vida insiste — e a ela ninguém ensina — que já não há estrelas no céu nem luzes no horizonte: o escuro é acima um véu que, mais que eu, sabe onde nada se acaba, até que se morra por sóis inatos sempre distantes e um pouco antes que se avance sem que se mova. A noite é longa e a chuva fria, e a luz que falta a dor incita. A manhã tarda, por mais que tente, e o mundo... esse nem se ressente.

Ficar nunca é fácil e ir-se embora custa: o relógio é muito ágil e o tempo não muito dura. E guardar de si não dá quando se é a si mesmo, e só se é o que o destino mandar — sem nem mandar ler o texto. Mas nada acaba, até que se morra, que o sol renasça sempre distante e um pouco antes que se avance sem que se mova. A noite passa e a chuva estia, e a luz já raia, e é logo dia: o calor seca e enxuga a mente. E tudo será diferente.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

ONÍRICO Nº2

Guarda o coração pra ti. Finge seguir sem pensar. Como se o que reténs de mim vá te proteger de o tentar. Deus! que tola és de sentir esses sonhos sem admitir! E quão mais solitária, pois, de quereres não os ter tido depois... Deixa o coração pra trás: lacra tudo e dá um fim. Como se, fazendo assim, vás esquecer-te do mais.

terça-feira, 30 de abril de 2013

ONÍRICO Nº 1

Por volta dessa época, ela começou a aparecer nos sonhos dele. Ela, como ele primeiro a conhecera e já mal lembrava, com o encanto do frescor juvenil que nenhum dos dois jamais teria de novo. Ele via-a então com o mesmo sorriso e os mesmos olhos, mas em cores lúridas que davam aos sonhos um sabor cômico de obscenidade; e ele acordava sem saber se ainda sonhava. Às vezes o travesseiro ficava molhado, às vezes o lençol.

sábado, 27 de abril de 2013

Uma dor quotidiana muda pari passu ao curso do seu tempo, em proporções diretas (ou inversas) ao liame entre tempo e júbilos perdidos — dúvidas eternas sobre o nexo direto entre os liames e o próprio tempo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Neste mesmo momento, pela primeira vez, sentiu-se bem. Enquanto ali jazia, apesar de tanta dor, sentiu-se completamente bem. Talvez tão bem como nenhum ser humano já sentira. Exceto talvez por sentir-se um pouco triste pela sua inabilidade em consolar ou confortar a moça que soluçava sobre o seu campo de visão, cujas mãos repousavam sobre as têmporas dele, cujos joelhos, ladeando a cabeça dele, ele ouvia serem arranhados pelo contato com a superfície desigual do asfalto, mesmo através das buzinas histéricas e da parolagem horrorizada dos curiosos. Os faróis apontados para ele encandeavam a sua visão, e ele não conseguia enxergar o rosto dela acima do seu. Ele perguntou-se quantas daquelas gotas seriam da chuva.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A INFANTA ENCASTELADA

Com o passar dos anos, ela ia tornando-se luminosa, e a pele, branquíssima, cada vez mais alva — sob a qual já se vinham adivinhando os delicados ossos. Somente se alimentava de ar e de sonho. Assim, os espelhos, vendo-a esvaecer em transparência na penumbra da câmara, acordaram entre si de devorar a infanta, que já não era senão um sorriso tênue, como um raio de luz.

terça-feira, 23 de abril de 2013

LÁ VAIS TU...

Ah, não! já lá vais tu esperançar...
mas duvidando se ainda dá:
queres futurar antes de presentear.

Be mindful of your thoughts, they betray you...

domingo, 21 de abril de 2013

VINTE E UM

Que sejam sempre vinte e um. Que sejas, que sejamos — que seja! Rejuvenesça-se, pois! Sorvamos Ponce de León em garrafas de Merlot. Vinte e um aos vinte e um: fossem vinte, não seria tão único. Vi-te e vim-te, e logo eram vinte e uma, e logo eram vinte e um... Não me contive, assim te tive. Quem me reteve e entreteve, me teve entre retesos fins, até mais tarde, até a mim, desde que horas eram? Que horas são? Não me sinto são. Foram eras, foram segundos, desde as seis, não sei. Só sei que foi doce, e que seria mais, e que, se não fosse, eu não sei o que iria. Mas o que eu queria era que essa noite durasse pra sempre...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Fortuna te deixou aqui,
pensando descobrir
que nada está por vir;
e nem destino pra traçar,
amores cósmicos a partilhar,
e nada a encontrar
que se possa achar;
porque, com tudo o que já passou,
parece, o estranho és sempre tu:
sozinho, pobre e nu
numa cidade infernal.
Mas, quando não houver opção,
podes ouvir minha canção,
na torpe escuridão
desta cidade infernal.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

— Nunca fomos tão belos assim, meu querido. Não juntos.
— Mesmo assim... Sempre amei demais a ideia de nós dois. Jamais consegui expressar isso em palavras ou em gestos. E entendo que o fato de eu trazer isso apenas hoje não significa que eu esteja quebrando esse tabu pessoal, só queria que soubesses que sempre te amei mais do que eu consegui dizer ou fazer.
— Sempre suspeitei disso... Eram os teus olhos que me falavam.
— E por que vamos partir assim? Não merecíamos mais do que essa distância anunciada?
— Porque estes somos nós agora: separados por uma distância que se anuncia, mas que já veio há bastante tempo para ser percebida.

terça-feira, 16 de abril de 2013

PASSADO

O que esperas, passado, das tuas escolhas? De mim?
O futuro, já o leras, mesmo aqui, mesmo assim.
Mas o ritmo soou-te uma complexa sinfonia,
E trocaste-o então outras melodias
Cujas poucas notas fáceis já bem sabias de cor.
Pra testá-lo ou provar-lhe? Que alvoroço mor!
Sabias que o tinhas, e o que ele queria de ti.
E, se o tivesses querido, não o terias deixado partir.
Espera, passado, também das tuas escolhas fruir.
Segue, pois, teu vazio de morte: é um amigo que não te vai trair.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Os arremedos do passado dão-se nomes falsos e chamam-se prazenteiramente de futuro. Esse morto-vivo, o passado, está sujeito a falsificar o seu passaporte. Ponhamo-nos a par da armadilha. Desconfiemos.

domingo, 14 de abril de 2013

TUDO POR FAZER

Construí muralhas privadas de luz,
Sonhos de jardins, de flores, de sombra e de pó.
Eu lá fiz alguns mundos, alguns lugares,
Lá depus o meu coração, todo o meu saber:
Ajuntei todos os meus esforços, o horizonte e a terra,
E tudo ainda resta por fazer.

sábado, 13 de abril de 2013

OUTRA VEZ

— Primeira
vista e pronto:
ela é perfeita,
é essa aí.

— Lindo,
como num filme:
todas as falas
que eu quis ouvir.

— Depois,
quase perfeito,
inda somos dois e
um só coração.

— Paixão
dentro do peito —
tem seu defeito,
mas o que não?

— Noite. Há
planos prum filme.
Chamas, cancelas:
dançam donzelas.

— E, então,
os piqueniques
tornam-se futebol:
meninos e meninices.

Passam
meses, e as coisas
não são o que eram.
Nada é pra sempre

— Tarde
a casa chegando,
teus olhos de anjo
acusam-me: culpa.

— Segues-me
escondido.
Estamos morrendo:
ciúme é cancro.

Tu nunca tens tempo ou espaço pra me ver...

— Ah, dá um tempo, eu quero espaço pra viver!

— Não posso crer nas coisas que estás a dizer!

Tu não o dirias, se tivesses o amor que dizes ter.

— Ah, não...
As rosas que te dei
já nos fenecem —
com o nosso amor.

Foi-se.
Os créditos sobem,
lágrimas descem,
cortinas caem.

E chega o fim.
E é tão ruim.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

E voa uma emoção que será canção, que deslizando vai pra fora da sala... É como uma fotografia que um dia, sabe, era minha e agora não é mais — Se levaste embora, traz.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

LVX PERPETVA LVCEAT


Ela é céu azul,
é um milagre cru;
a cruz do sul
que se acende por ele
quando luz lhe faltar.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

EU TE AMEI, EU SIM

Eu te amei, eu sim.

Uma vez, há muito.

Mas tu esqueces tudo.

terça-feira, 9 de abril de 2013

E em meu braço, onde é teu travesseiro — e o teu seio, que é o meu — adormecido, és tão parte de mim, que agora eu olho a casinha e me sinto um cãozinho também...

segunda-feira, 8 de abril de 2013

FOSTE TU

Foste tu
A envolver-me em nuvens
Foste tu
Fazer cair meu céu
Foste tu
Quem me levou alhures
Foste tu
Foste tu
Quem fez meu pejo troféu


domingo, 7 de abril de 2013

O DISTRAÍDO FRIO DUM CHUVOSO ABRIL

Ainda não te contei disso,
que não sei escolher as palavras
que não soem brandas nem amargas
e compactuem com o meu brio,
pois o bonde encontrei-o indo —
e penso que há muito já o perdi,
assim que percebi

que a conexão extrassensorial
já se tornava em bombas de napalm,
que a inspirar e expelir
o distraído frio dum chuvoso abril
duma sonolenta tarde de domingo,
eu por um ano ou dois
imaginei não findar mais —

mas desconfio que sei por onde andam
as tuas pegadas metafóricas
há muito escondidas,
e que os pássaros não as engoliram,
nem as histórias (têm morais) estrambólicas,
nem nos traz lições a vida,
nem ensina a dar o tom.
E nem por isso o choro é azul,
porque o sorrir é bom,
especialmente o teu.
Menino meu.
Menino tu.

Peço-te que não me deixes
deixar-te o meu coração
que mais não soa que o turbulento ronronar
das minhas vísceras ao te encontrar
de encontro a um solstício de meio-verão,
quando não haverá mais medo,
esperança, desejo ou anseio
por falas que não sigam guião,
nem abutres que cobicem meu nada —
estilhaços da infância roubada
que hoje vejo ressurgir
num ocaso que não quero que tenha fim,
por temer que o ódio que tenho por mim
se torne em amor por ti

— amor que me veio nascer
nas ruínas do meu pranto mudo.
Mas o tempo cura tudo
e, agora, eu posso envelhecer.

sábado, 6 de abril de 2013

O SONHO

Ando pela mata adentro, té à casa escura: quanto mais avanço, mais silêncio faz. Espio a janela, bato na porta. E o monstro, que eu tanto temi, jaz só por terra e chora, agarrado aos joelhos, com medo, fome e frio, até adormecer.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sofre essas cócegas e, só assim, poder-te-ei ver sorrir um pouco.

sábado, 30 de março de 2013

ABANTESMAS


Tornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar? Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?

Chegam... que densa turba! Envolve-me... Não posso
furtar-me ao seu triunfo. Eis-me, Visões, sou vosso.

Vai-se-me em névoa o mundo. Emanações sutis
que exalais, vêm tornar-me aos anos juvenis.
Que imagens que trazeis de dias tão risonhos!
Caras sombras! sois vós? aéreas como em sonhos?

Como recordação de lenda já perdida,
volve o amor, a amizade, e reassumem vida;
torna a dor a doer. Oh, vida! oh, labirinto!
de novo o mesmo sois. Já renascer me sinto.




domingo, 24 de março de 2013

Não disse nada, não elaborou nenhum plano, não aprontou as malas, não teve medo, nem pensou, na verdade. Só resolveu. E assim fez.

Era cedinho, a alvorada duma manhã inaudita, ou invisa, quando abriu a janela, cheirou a brisa, tirou a camisa, franqueou os braços, fechou os olhos e saltou.

quarta-feira, 20 de março de 2013

A CHAMADA

Súbito, estava muito escuro e persistia a repetir o mesmo trecho da Grande Valsa, irritante e eletrônico. Ele estendeu a mão direita e tateou o criado-mudo que tremelicava a cada nota da melodia. Encontrou o telefone ainda de olhos fechados, puxou-o para si e, ato contínuo, premiu a tecla que atendia a chamada, mais por memória muscular do que por interesse em quem quer que estivesse do outro lado da linha. Ficou imóvel por um segundo, aliviado pelo cessar do som. Só então se preocupou com o que poderia motivar aquela ligação ― afinal, chamadas noturnas nunca são portadoras de boas novas ― e aproximou o aparelho ao ouvido.
― Sim? ― resmungou pachorrento, quase ininteligível pelo sono.
E do seu interlocutor veio o silêncio.

segunda-feira, 18 de março de 2013

AS ESTRELAS

Lembrei-me de olhar para o céu pela primeira vez hoje, e deitei com as costas no chão. Olhei para o teto e vi as pequenas estrelas tão brilhantes quanto falsas que estavam grudadas nele. Ele me fará muita falta. Quem me lembrará de olhar pra cima?


quinta-feira, 14 de março de 2013

MARÇO

Março não houve, e assim eu. O seu deus já se deu e o meu já se foi, afiado de sedes, afilhado de seres que nunca o mereceram, mas talvez nem eu. Eu me fio de espadas que já o seu perderam, e no sangue de tanto embebidas vão do estupor a outros anos, em que tudo turvo é pouco claro e, se me perturbo à procura dum pensamento rubro como os olhos de furacões passados, que são eu, só eu, e que esfrego pra dispersar o sono, dispenso o sonho e me encontro numa melancolia tão linda como jamais vira ou virá (e, nos ares de lá, os sapatinhos não são de rubi e não me levam de volta a um lugar tal qual nenhum há). Ares continua a fiar, e eu a o desafiar.
No ar de março ainda seco respiro o orvalho dum renascimento morredouro. Recuo: esperança é o defeito que a experiência não apaga, o esteio no estio de um barco cuja âncora não afunda, cuja cura puja pura num medo de rubros e escuros que nunca se deveria perder, em que me perco, de giro em giro, num planeta tão próximo de tão distante, dentre espelhos em que não me vejo, e ensejo anseios e devaneios, e repito uma blasfêmia, uma poesia que caminha lado a lado com o meu destino, escrito em poucas linhas na palma da mão das impressões das estrelas na calçada. Março não chove, e nem eu.


segunda-feira, 11 de março de 2013

AS ASAS

Certa noite, ele criou asas. Elas brotaram das suas costas, surgiram simplesmente como fossem acne. E ele não sabia como lidar com isso. Não se lembrava de nenhum ensinamento quanto a esse assunto. E por isso teve medo.
De primeiro, tentou escondê-las, como fazia com tudo o mais, e aí ele as cobria com camisas grossas e casacos mais grossos ainda, e fazia de conta que elas nem estavam lá, mas elas iam crescendo a cada noite e ficava complicado. Então, com medo que dessem nas vistas, ele passou a sair menos de casa, a conversar menos com as pessoas, a se isolar mais do que já se isolava, incompreendido como já era, anormal como se tornava. Ele não queria ser assim, mas ser como se é nem sempre é de querer.
Umas duas ou três vezes ele chegou a pensar em pegar uma faca ou um canivete e cortar as asas fora, pra acabar com isso logo de vez, e mesmo uma vez tentou fazê-lo. Mas ao ver aquelas penas tão brancas e bonitas, duma beleza tão singela e simples, como nada do que ele já tinha aprendido, e pensou como ficariam feias sujas de sangue, e teve pena, e mudou de ideia.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Nesse momento escapa-me um suspiro: ares antigos. Acanhadas sutilezas repugnantes regurgitadas. Algo me diz que essa incompletude que ostento me furta a capacidade de ser melhor.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Dois homens que têm um segredo em comum, e que, por um gênero de acordo tácito, não trocam uma palavra acerca dele, isso é menos raro do que se pensa.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

AQUELE BEIJO

Quando aquele beijo aconteceu, não acreditei que pudesse acontecer. Nem que estivesse a acontecer. Aquele beijo tão inesperado foi um sonho de longa data do qual ainda não me apercebera ter sonhado. Aquele beijo ofereceu-se sem reservas, sem limites, sem pudores. Aquele beijo sintetizou tudo em um momento único que sempre pareceu distante e que subitamente se fez perto. Aquele beijo foi a primeira expressão de amor genuíno em muitos anos. Aquele beijo foi um universo à parte, uma realidade desconhecida, um lampejo do paraíso que não cria existir. Aquele beijo despertou tudo, desejou tudo, absorveu tudo, consumiu tudo. Aquele beijo içou velas, fez-se ao mar, e partiu. Aquele beijo penou a saudade de uma época que nunca houve. Aquele beijo doeu toda a ausência de uma vida.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A quem acusar?
A ninguém, e a todos.
Os tempos incompletos em que vivemos.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

EM PAZ

Nenhuma dureza que haja poderia desconcentrar-me, nem mesmo as memórias das tristezas, porque não há mais razões para isso. Está tudo aqui: um emaranhado de coisas velhas e novas. Tesouros em monturos. Não sei mais a distinção. Causas desconhecidas inclinam-me a uma silente reflexão que não alcança objetivos. Se me escureço como faço, perco o rumo e desando. Mas não temo o futuro, tão incógnito como jamais foi. Afundo nesse presente, excentricamente diluído, destoo de minha dança, e descanso em paz.

sábado, 26 de janeiro de 2013

É um mundo cão.
É uma luz insensata.
É uma falha ignota.
É mentira que mata.
É um erro imêmore.
É um choro que sai.
É mais nada a dizer.
É a noite que cai.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

VIDA VAI (ESVAECER)

Dizes nada bem já estar.
E eu, que te senti sem razão,
Tudo começava a mudar.
E perdi-me na chuva só, então.

E a vida a esvaecer.
Toda a vida vai
Esvaecer.

Dizes fado já nos vir,
Como eu acreditei que não.
E tudo começa a cair.
Perde-se no deserto só, então.

E a vida a esvaecer.
Toda a vida vai
Esvaecer.

Nuvens negras vão e vêm
Entristecer corações
E desertamos. Porém,
Sós, perdidos, sem razões.

E a vida a esvaecer.
Toda a vida vai
Esvaecer.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

É o signo de um verão que eu sonhei um dia não acabasse mais...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A consciência inteletual não é menos indispensável que a melhoria material. O saber é um viático, o pensar é uma necessidade primária, a verdade é comida como o frumento. Uma razão, ao jejum de ciência e sabedoria, adelgaça. Compadeçamo-nos, tanto como com os estômagos, com os espíritos que não comem. Se houver algo mais desgarrador que um corpo agonizando por falta de pão, é uma alma que morre por fome de luz.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

CÉU AQUI

Somos os únicos a senti-lo:
Hoje bebemos, hoje dançamos com os últimos que sabiam;
Gritamos aos sussurros, cansamos de aguardar,
Tomamos o que queremos, e deixamos o que sabemos.

Ainda sonhamos o nosso sonho fúnebre, nus e atados, torcidos amados
E hoje seremos os únicos a senti-lo.
Então deixa durar,
Deixa durar.
Deixa o fogo cercar-nos, deixa arder, deixa queimar.
Deixa tudo o mais para trás:
Eis o nosso céu.

Fomos bravos e partimos;
Rompemos e vazamos,
Salvamos o que pudemos
E o céu não nos espera: esparge segredos.
Está dentre nós e já não há escolha além de crer,
Então deixa durar.

Nus e atados, torcidos amantes,
Hoje seremos os únicos a sabê-lo:
O céu é aqui.