sábado, 30 de março de 2013

ABANTESMAS


Tornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar? Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?

Chegam... que densa turba! Envolve-me... Não posso
furtar-me ao seu triunfo. Eis-me, Visões, sou vosso.

Vai-se-me em névoa o mundo. Emanações sutis
que exalais, vêm tornar-me aos anos juvenis.
Que imagens que trazeis de dias tão risonhos!
Caras sombras! sois vós? aéreas como em sonhos?

Como recordação de lenda já perdida,
volve o amor, a amizade, e reassumem vida;
torna a dor a doer. Oh, vida! oh, labirinto!
de novo o mesmo sois. Já renascer me sinto.




domingo, 24 de março de 2013

Não disse nada, não elaborou nenhum plano, não aprontou as malas, não teve medo, nem pensou, na verdade. Só resolveu. E assim fez.

Era cedinho, a alvorada duma manhã inaudita, ou invisa, quando abriu a janela, cheirou a brisa, tirou a camisa, franqueou os braços, fechou os olhos e saltou.

quarta-feira, 20 de março de 2013

A CHAMADA

Súbito, estava muito escuro e persistia a repetir o mesmo trecho da Grande Valsa, irritante e eletrônico. Ele estendeu a mão direita e tateou o criado-mudo que tremelicava a cada nota da melodia. Encontrou o telefone ainda de olhos fechados, puxou-o para si e, ato contínuo, premiu a tecla que atendia a chamada, mais por memória muscular do que por interesse em quem quer que estivesse do outro lado da linha. Ficou imóvel por um segundo, aliviado pelo cessar do som. Só então se preocupou com o que poderia motivar aquela ligação ― afinal, chamadas noturnas nunca são portadoras de boas novas ― e aproximou o aparelho ao ouvido.
― Sim? ― resmungou pachorrento, quase ininteligível pelo sono.
E do seu interlocutor veio o silêncio.

segunda-feira, 18 de março de 2013

AS ESTRELAS

Lembrei-me de olhar para o céu pela primeira vez hoje, e deitei com as costas no chão. Olhei para o teto e vi as pequenas estrelas tão brilhantes quanto falsas que estavam grudadas nele. Ele me fará muita falta. Quem me lembrará de olhar pra cima?


quinta-feira, 14 de março de 2013

MARÇO

Março não houve, e assim eu. O seu deus já se deu e o meu já se foi, afiado de sedes, afilhado de seres que nunca o mereceram, mas talvez nem eu. Eu me fio de espadas que já o seu perderam, e no sangue de tanto embebidas vão do estupor a outros anos, em que tudo turvo é pouco claro e, se me perturbo à procura dum pensamento rubro como os olhos de furacões passados, que são eu, só eu, e que esfrego pra dispersar o sono, dispenso o sonho e me encontro numa melancolia tão linda como jamais vira ou virá (e, nos ares de lá, os sapatinhos não são de rubi e não me levam de volta a um lugar tal qual nenhum há). Ares continua a fiar, e eu a o desafiar.
No ar de março ainda seco respiro o orvalho dum renascimento morredouro. Recuo: esperança é o defeito que a experiência não apaga, o esteio no estio de um barco cuja âncora não afunda, cuja cura puja pura num medo de rubros e escuros que nunca se deveria perder, em que me perco, de giro em giro, num planeta tão próximo de tão distante, dentre espelhos em que não me vejo, e ensejo anseios e devaneios, e repito uma blasfêmia, uma poesia que caminha lado a lado com o meu destino, escrito em poucas linhas na palma da mão das impressões das estrelas na calçada. Março não chove, e nem eu.


segunda-feira, 11 de março de 2013

AS ASAS

Certa noite, ele criou asas. Elas brotaram das suas costas, surgiram simplesmente como fossem acne. E ele não sabia como lidar com isso. Não se lembrava de nenhum ensinamento quanto a esse assunto. E por isso teve medo.
De primeiro, tentou escondê-las, como fazia com tudo o mais, e aí ele as cobria com camisas grossas e casacos mais grossos ainda, e fazia de conta que elas nem estavam lá, mas elas iam crescendo a cada noite e ficava complicado. Então, com medo que dessem nas vistas, ele passou a sair menos de casa, a conversar menos com as pessoas, a se isolar mais do que já se isolava, incompreendido como já era, anormal como se tornava. Ele não queria ser assim, mas ser como se é nem sempre é de querer.
Umas duas ou três vezes ele chegou a pensar em pegar uma faca ou um canivete e cortar as asas fora, pra acabar com isso logo de vez, e mesmo uma vez tentou fazê-lo. Mas ao ver aquelas penas tão brancas e bonitas, duma beleza tão singela e simples, como nada do que ele já tinha aprendido, e pensou como ficariam feias sujas de sangue, e teve pena, e mudou de ideia.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Nesse momento escapa-me um suspiro: ares antigos. Acanhadas sutilezas repugnantes regurgitadas. Algo me diz que essa incompletude que ostento me furta a capacidade de ser melhor.