quarta-feira, 20 de março de 2013

A CHAMADA

Súbito, estava muito escuro e persistia a repetir o mesmo trecho da Grande Valsa, irritante e eletrônico. Ele estendeu a mão direita e tateou o criado-mudo que tremelicava a cada nota da melodia. Encontrou o telefone ainda de olhos fechados, puxou-o para si e, ato contínuo, premiu a tecla que atendia a chamada, mais por memória muscular do que por interesse em quem quer que estivesse do outro lado da linha. Ficou imóvel por um segundo, aliviado pelo cessar do som. Só então se preocupou com o que poderia motivar aquela ligação ― afinal, chamadas noturnas nunca são portadoras de boas novas ― e aproximou o aparelho ao ouvido.
― Sim? ― resmungou pachorrento, quase ininteligível pelo sono.
E do seu interlocutor veio o silêncio.

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