segunda-feira, 11 de março de 2013

AS ASAS

Certa noite, ele criou asas. Elas brotaram das suas costas, surgiram simplesmente como fossem acne. E ele não sabia como lidar com isso. Não se lembrava de nenhum ensinamento quanto a esse assunto. E por isso teve medo.
De primeiro, tentou escondê-las, como fazia com tudo o mais, e aí ele as cobria com camisas grossas e casacos mais grossos ainda, e fazia de conta que elas nem estavam lá, mas elas iam crescendo a cada noite e ficava complicado. Então, com medo que dessem nas vistas, ele passou a sair menos de casa, a conversar menos com as pessoas, a se isolar mais do que já se isolava, incompreendido como já era, anormal como se tornava. Ele não queria ser assim, mas ser como se é nem sempre é de querer.
Umas duas ou três vezes ele chegou a pensar em pegar uma faca ou um canivete e cortar as asas fora, pra acabar com isso logo de vez, e mesmo uma vez tentou fazê-lo. Mas ao ver aquelas penas tão brancas e bonitas, duma beleza tão singela e simples, como nada do que ele já tinha aprendido, e pensou como ficariam feias sujas de sangue, e teve pena, e mudou de ideia.

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