quinta-feira, 14 de março de 2013

MARÇO

Março não houve, e assim eu. O seu deus já se deu e o meu já se foi, afiado de sedes, afilhado de seres que nunca o mereceram, mas talvez nem eu. Eu me fio de espadas que já o seu perderam, e no sangue de tanto embebidas vão do estupor a outros anos, em que tudo turvo é pouco claro e, se me perturbo à procura dum pensamento rubro como os olhos de furacões passados, que são eu, só eu, e que esfrego pra dispersar o sono, dispenso o sonho e me encontro numa melancolia tão linda como jamais vira ou virá (e, nos ares de lá, os sapatinhos não são de rubi e não me levam de volta a um lugar tal qual nenhum há). Ares continua a fiar, e eu a o desafiar.
No ar de março ainda seco respiro o orvalho dum renascimento morredouro. Recuo: esperança é o defeito que a experiência não apaga, o esteio no estio de um barco cuja âncora não afunda, cuja cura puja pura num medo de rubros e escuros que nunca se deveria perder, em que me perco, de giro em giro, num planeta tão próximo de tão distante, dentre espelhos em que não me vejo, e ensejo anseios e devaneios, e repito uma blasfêmia, uma poesia que caminha lado a lado com o meu destino, escrito em poucas linhas na palma da mão das impressões das estrelas na calçada. Março não chove, e nem eu.


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