sexta-feira, 31 de maio de 2013

NINGUÉM COMO TU

Todos sabem que eu sou o corifeu dos que gostam de ficar a falar dos seus problemas, deprimindo toda a gente. Pode ser que seja estranho, mas até há poucos anos eu fechava-me de tudo. E tenho a noção de que sozinho não teria saído do casulo: lembro que aprendi que quando precisasse de ficar bem, procurasse refúgio em alguém. E mesmo quando não busquei, numa estranha forma de compensação, eu sei que sempre alguém me deu a passagem de volta pra mim.

O que dizer de gente assim?

Se eu falasse em termos de anjos ou enviados, pensariam em alguém que viesse de cajado na mão libertar as almas da opressão. Mas do que se trata é de um pouco de compreensão, de coisas que acontecem no dia a dia; de alguém que foi bom pra mim. De não haver alguém que me tenha sido tanto. De não haver ninguém como tu.
Ninguém como tu.
Ninguém como tu.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

OITAVO DIA

No oitavo dia, Deus, depois de tanto trabalhar,
Para liberar tensões duma sequência criacional,
Disse: "Tudo é muito bom. E é hora de descansar."
E se foi dar um passeio pelo espaço sideral.

Quem iria imaginar que o mesmo Deus, ao regressar,
Ia encontrar tudo numa desordem infernal,
E que se ia transformar num desempregado a mais,
Dessa taxa que anualmente está crescendo sem parar?

Desde então, há quem o haja visto
Só, pelas ruas, a transitar:
Anda esperando paciente por alguém
Com quem, ao menos, tranquilo
Possa conversar...

E se à falta de ocupação — ou excessiva solidão —
Deus não resistir e alhures vá lugar a procurar?
Seria a nossa perdição! Não haverá remédio que não
Adorar a Michael Jackson, a Bill Clinton, a Tarzã...

É mais difícil ser rei sem coroa
Que uma pessoa mais normal.
Pobre de Deus, que não sai em revista,
Não é modelo, nem artista,
Nem de família real.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

LAVA

Lava
      A minha memória suja nesse rio de lama.
      Lambe-a de mim, a lava que se derrama,
      E não deixes testemunho mudo
      De tudo
      Que me intriga
      E me fadiga.

Expulsa,
      Caça-a em mim, a predadora vil.
      E quando a tiveres na mira do fuzil,
      Não a escutes se te implorar:
      Sabes já
      Que ela deve morrer uma úlima morte.
      Não te importes.
      Mata-a.

Chora.
      Já o fiz antes, de nada me serviu:
      O pranto não apaga o mal que o olho viu.
      Eu tentei, eu tentei.
      Mas sei
      Do meu coração seco e da minh'alma estéril,
      E, sério,
      Irrompo.

Queima.
      Queimas quando te afundares no meu leito em riste.
      A minha cama derrete num calor sem entrave:
      E mais nada é triste,
      E mais nada é grave,
      Se tenho
      O teu corpo como uma torrente de lava:
      Minha memória suja no teu rio se lava.

domingo, 19 de maio de 2013

SE CEDER

E o sempre prudente filho das trevas calcula os próprios passos, acautela-se os movimentos, desvia o ônus e escapa ao laço, enquanto pode. Nunca indolente, teme a acescência potencial dos tempos e dos afetos: que lhe há de suceder, se ceder?

domingo, 12 de maio de 2013

DEVÍAMOS

devíamos amar com mais paciência
devíamos sangrar com menos violência
devíamos esperar com mais confiança
devíamos viver com menos medo

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Ele quis parar e parou. A vida levou-o na corrente, porque ele se deixou levar e foi.

terça-feira, 7 de maio de 2013

CALEI-ME

Calei-me. Sou um silêncio enquanto me ergo dessa estranha poltrona. Morrerei em breve. Ainda não agora. Estou vivo. E essa vida que ainda é será ainda mais quando os desígnios que medi forem acionados. É fácil mudar. Mudarei agora mesmo. Abro a porta e saio e levarei comigo essa reflexão tão abstrata quanto profunda. Tudo o que sei é o que sinto e sinto-me vivo de novo. São as últimas vezes, cada momento desses, cada respiração, cada vontade. E tenho vontade de existir. Então existo. Mas por quanto tempo?

segunda-feira, 6 de maio de 2013

ΑΝΤΙΝΟΜΙΑ

Que grande dor de tão fácil alívio. Que grande tristeza de tão largos sorrisos. Que grande problema de tão parcas avarias. Que grande solidão de tão frequentes companhias. Que grande vazio de tão simples preenchimento. Que grande amor de tão rápido esquecimento.

domingo, 5 de maio de 2013


Agora eu sinto tudo em mim: de ódio a amor, de amor a luxúria, de luxúria a verdade.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

ONÍRICO Nº 3

É que acordar é triste, mas dormir é pena. E a vida insiste — e a ela ninguém ensina — que já não há estrelas no céu nem luzes no horizonte: o escuro é acima um véu que, mais que eu, sabe onde nada se acaba, até que se morra por sóis inatos sempre distantes e um pouco antes que se avance sem que se mova. A noite é longa e a chuva fria, e a luz que falta a dor incita. A manhã tarda, por mais que tente, e o mundo... esse nem se ressente.

Ficar nunca é fácil e ir-se embora custa: o relógio é muito ágil e o tempo não muito dura. E guardar de si não dá quando se é a si mesmo, e só se é o que o destino mandar — sem nem mandar ler o texto. Mas nada acaba, até que se morra, que o sol renasça sempre distante e um pouco antes que se avance sem que se mova. A noite passa e a chuva estia, e a luz já raia, e é logo dia: o calor seca e enxuga a mente. E tudo será diferente.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

ONÍRICO Nº2

Guarda o coração pra ti. Finge seguir sem pensar. Como se o que reténs de mim vá te proteger de o tentar. Deus! que tola és de sentir esses sonhos sem admitir! E quão mais solitária, pois, de quereres não os ter tido depois... Deixa o coração pra trás: lacra tudo e dá um fim. Como se, fazendo assim, vás esquecer-te do mais.