segunda-feira, 1 de julho de 2013

PARTIREI

Tomarei um barco e partirei: já não há nada, que eu sei, que aqui me detenha. Lançarei o sonho sobre as águas e depois de muitos dias o meu alento encontrarei. Sinto os ventos sibilantes quais sereias serpenteantes de alhures, de quão antes for, que me encantam para si, quão antes me for, e ainda que quisesse, que distante fosse, não lhes poderia resistir. E não irei. Mas irei. Ama-me, pois, enquanto não me for. 
Ama-me menos, ama-me um longo tempo. Ama-me enquanto não parti. De fato, é um caminho demasiado longo de qualquer lado de onde se vier para chegar aqui. Mas espero que o coração me baste pra levar tanta saudade, tanta esperança num bom fim, que o céu, no seu vazio populoso desse sempiterno gozo, já não me representa um sim. Ama-me agora. Ama-me como antes. Ama-me como nunca. 
E eu só peço que me guardes na memória, que te lembres toda a glória que me foste e que eu fui pra ti, e que agora que chegou a minha hora, que o instante me devora, e que nada sobra em mim, possas ter a paz que eu busco, navegando ao lusco-fusco de encontro ao que não existir. Partirei. Ama-me enquanto cá estou. Vais poder sentir a minha falta quando me for.

2 comentários:

Anónimo disse...

Boa viagem.

Larissa Maciel disse...

Amei esse teu texto. Realmente, devemos aproveitar enquanto não partimos, pois depois, só Deus sabe o que vem... Lindo, parabéns! Abraços.