sexta-feira, 9 de agosto de 2013

RUAS E TRILHOS

Nas ruas que perdi, em que me perdi, dentro dos meus olhos negros de betume, cansados de tudo, feitos de nada, procuro mapas, fins, rotas, meios. Recomeços. Agora que te busco nas ruas, nas estações, em toda palavra que sei, em cada uma dita por engano por alguém que não sabe bem como passar a outra sorte, outros gêneros, outros ditos, outros dias, percebo-me menos. Repito-me, repito-me, repito-me, e já não pareço ter significado. Fui tantos, mas sempre torno a ser eu, de olhos pretos, de noites escuras, de almas impuras. A noite em mim é múltipla. E sinto a tua falta de tantas formas.
Eu vivo disperso nos subterrâneos destas semanas em que nada me resta dos instantes que me consomem o ventre. São recordações alojadas em fisiologias escusas, anatomias inadequadas, laços irrompíveis atados a cada dedo. O trilhos rugem um som de morte, o relógio urge estrondos que me atentam a paz, e ainda assim o tempo que transborda o meu cálice não passa de mim, mas antes foge em direção aos teus braços que nunca mais me envolverão do mesmo modo. Julguei que encontrara um canto pros meus olhos se fecharem indenes. Mas o meu lugar é um tempo que não volta mais.
E eu, que sou nada, vago indistinto, incerto nas trevas da noite destas ruas de betume como os meus olhos. O meu destino hoje me pesou, mediu e me achou em falta. E os túneis que me levam não me conduzem ao Elísio.
Pendura no espelho o meu retrato. Será, desde já, o único lugar onde me encontrarás como eu era. A minha pele narra a história de décadas difíceis. Os meus olhos contam anos perdidos, muito longos pra relatar. Os tempos me voltam, mas nunca os mesmos, o meu futuro é cíclico, o meu mundo sempre foi, mas dele sinto falta.
Ah! Se soubesses...