sexta-feira, 6 de setembro de 2013

NOTURNO 2

À beira abismal do sombrio mar de mal, eu chamo a meia-luz e o seu poder de fazer crer, fazer ser, o que quer que se queira, e da beira do abismo do meu abismado meio-peito, desnudado de couraça, coração aberto às surpresas do sereno, sereno-me a mente e confesso a minha alma: perdoa-me Pai, eu não pequei o suficiente para me arrepender.
Se já quase me assombra descobrir que meço amor em durações, vida em deceções, regra em exceções, eu decido e declino; aceito e sublinho. E agora que sei de todos os meus egos, todos os meus erros, eles punem-me mais, torturam-me tais quais ais apocalípticos, cais de navios em partida para nova terra, novo céu, e, surpresa, já não há mar. E já não há mar. Perdoa-me Pai, eu não pequei o suficiente.
Os meus erros há de cobrir o pó. No fim de tudo, hei de estar só, quando só houver meia-luz, e a luz eu expelir de mim, num último suspiro, e pelos meus olhos semicerrados, ainda na minha carne eu verei a vida. E assim a vida finda. E regozijo-me que não haverá mais surpresas. E atesourarei e acarinharei a ternura dos momentos que duram para sempre. Perdoa-me Pai, eu não pequei.

1 comentário:

friend disse...

tu a escrever é qualquer coisa de sensacional. tocas as pessoas. raro