quarta-feira, 23 de abril de 2014

A CALMARIA

Há tão pouco céu que ninguém tem o suficiente. Há já tão pouco, que não leva a destino algum, porque se precisa de tanto mais. Mais céu, mais destino. Mais que um amor em cada porto: um porto em cada amor. Mas há tão pouco amor... Tão pouco há, que causa espanto. Tanto espanto que afugenta. Da terra fujo, não coma ela os meus olhos. E quando eu voltar, será que acharei amor na terra? Há já tão pouco... Há tão pouco que me fui, tão pouco que deixei, tão pouco para eu chegar. Haverá amor que chegue? Será ele suficiente? Entenda-se intenso, enteso, inteso. É na intensidade da insanidade que se recolhem as forças pra cavalgar a tempestade enquanto não vem a calmaria.

A vida é epítome constante de si mesma. Consome-me, consome-se, retroalimenta-se da fascinação que me rouba a cada momento testemunhado por estes meus olhos que a terra há de comer. E regurgitar. Vida. Mas há tão pouca... Às vezes sente-se como real, às vezes como se me tivesse sido gravada de antemão, como se as falas se repetissem sozinhas, como se fugisse ao meu controlo e tudo fosse movimento involuntário. Peristalse biográfica. E então penso na respiração, e penso que sempre pensei, e imagino se não pensasse. Se esqueceria de respirar, e os músculos não o fariam por mim. E se me acalmaria.

Há já tão pouco amor como um fio de voz ao telefone, pequena, abafada, que anuncia grandes novas do passado (de há tão pouco...) ou do futuro. Más ou boas. Notícias que na minha carne verei, com estes olhos que a terra ainda não comeu, nem o mar inundou. Novos matizes. Cambiantes de destinos. Há tão pouco amor, mas tanto choro. Muitos soluços, poucas soluções. Calma. Ria.

Sem comentários: