segunda-feira, 26 de maio de 2014

DEPOIS DE TODAS AS PALAVRAS SEREM DITAS

Depois de todas as palavras serem ditas, dalguma forma ainda assim se sentia qualquer coisa irresoluta, e assim ainda se continuou noite adentro, sem dormir, seguindo os próprios passos até não os conhecermos, tentando compreender como as vidas levaram e trouxeram o que hoje há. E há tempos que olho nos teus olhos e lá não acho ninguém que eu conheça. Uma supresa vazia é descobrir-se tão sozinho. 

Sozinhas saem as palavras, sempre vêm fácil pra mim. Embora eu saiba quão pouco signifiquem, comparado ao que deveria ser dito, depois de todas as palavras serem ditas, por amantes ao se tocarem para dormir. E desconheces desde então, desde sempre, desde já, o que amei em ti. E eu nunca soube o que amaste em mim. Uma surpresa vazia é saber que talvez fosse só o vulto de quem esperavas que eu fosse.

E, de novo acordado, para já, para sempre, não sei fingir que não me sei só. E só a mim sei. E não me basto sozinho. Depois de todas as palavras serem ditas, sinto-me perto do fim do sentimento que conhecemos. Quanto tempo dormi? Quanto tempo continuei a sonhar, sozinho, noite adentro, que tudo poderia dar certo? Quanto tempo olhei nos meus olhos, pra só agora ver que não era em os fechando que eu conseguiria? Uma surpresa vazia é tentar com todas as forças ser aquele precisas ter.

Depois de todas as palavras serem ditas, todas as promessas sussurradas, todas as luzes apagadas, todas as vidas levadas e trazidas, ouço passos que não conheço, e sigo-os. De olhos fechados. E, ainda assim, deito-me, sozinho, na cama onde deitámos juntos, tarde demais para dormir. E lá não acho ninguém que eu conheça. Penso que talvez seja tarde demais para gozar do paraíso.

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