terça-feira, 27 de maio de 2014

PARA ELE

Tem olhos de céu, pés desnudos e caminhos tortos que nenhum deus teria ousado escrever. Guia-se duma energia cósmica que não conhece nem se explica, traça rumos que jamais escolheria, entra em recônditos sombrios onde nada de bom resta e lá vê um corpo sufocado pela dura realidade. Reconhece-o lá pelos sorrisos que ele não sabe mais dar.

Para ele, torna-se ilha no oceano revolto, tábua de salvação para um céu em que ele não crê, Ave Maria dos náufragos que se perderam à procura da terra prometida. Torna-se lume a vagar, com ele, que irá ao seu lado, de regresso, farol que brilhará na noite mais densa. Por ele.

Acompanha-o de volta a casa. Livra-o do mal mesmo que ele caia em tentação. Escuta-lhe os pensamentos, os medos que o compõem, e a sua melancolia — que ainda o afoga como a maré em que singrava — estanca o peito que sangrava e lhe salva o coração da dor dessa saudade fria dum mundo que se vai sem lhe ter piedade.

Para ele, torna-se âncora, esperança numa terra à vista dos débeis vis, que não podem mais suportar a intempérie. Torna-se a primeira nuvem branca num céu muito carregado. Nuvem que só choverá confetes, milhares, milhões, de cores sem fim, e lhe trarão o primeiro sorriso sincero em um longo tempo.

Para ele, torna-se uma fábula que se conta e que na realidade se encontra só por ele. Para ele, torna-se a nostalgia do calafrio de coisas que ele não sabia que ainda podia sentir. E assim segue, ao seu lado, caminhando a pés descalços sem saber o anjo que é.

Sem comentários: