domingo, 27 de julho de 2014

A BONECA

Sou uma linda boneca de pano, toda costurada a golpes de navalha. Sou um rosto de sorriso aterrorizado, aterrorizante, aterrante, aterrado. Sou um corpo de cicatrizes cujos pontos se ligam por um misterioso conto que são meus matizes: uma colagem, uma montagem, ponto de cruz em padrão aleatório, colcha de retalhos que espalha vírus. Sou destroços de um furacão, ruínas deixadas por granadas. Sou a síntese da inocência perdida, a marca da infância estilhaçada, a esperança esvaecida duma compleição outrora linda. Por dentro sou oca, por fora marcada, e todo o resto é falso. Não há desejo, nem brio, sem calor nem frio, na confusão e caos.