quarta-feira, 26 de novembro de 2014

PARA BEM

Quanto a então, eu preocupava-me demais pra me importar, porque já passara dos meus vinte, e envelhecera bem mais que tanto. Esse gênio engarrafado em lâmpadas de obsolescência programada que me veio aprisionar junto a si foi o presente que recebi de aprender as regras, junto com a tendência a quebrá-las sempre que possível. Para bem ou para mal. O conhecimento sempre foi minha paixão, não meu amigo. E a culpa que disso decorre, por mim escorre, e corre e corrói corações partidos, fugidos, deixados, com votos e lembranças, que eu queria guardar. Mas nem sempre dá. Às vezes um vulcão leva tudo. Os lares não me pouparam: deixara-os cair e quebraram. Lares desfeitos são o primeiro sinal de que precisam de reparos. Repara só. Para, só. Para mal da alma, remédio amargo, disseram. Prova só um pouco. Um dos ossos do meu ofício é provar  provar de tudo  e ver se consigo manter o bom. De ossos, duzentos e seis, como sei. Contudo, quantos músculos os recobrem? Com tudo que foi e quase nada que é, o que me resta? Réstias mortais, restos de sombra fugidia. Quando abri o meu armário, o meu caixão, o meu sudário, ainda tinha tantos papéis inúteis e tantas lágrimas que verti e nunca enxuguei. Das que nunca pensei que fosses ver. Que nunca pensei que fosses ver. Mas tudo o que eu tinha de fazer era olhar de lado. Olhar pro lado. Pro teu lado. E ver-te dizer com os teus olhos que tudo ainda podia ficar bem. E, para bem, olhei.

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