sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

ALGURES NA NOITE

Entre a escuridão da rua e as casas esborratadas de luz, vagueio, fundido à paisagem, indistinto por fora, indiferente por dentro. O frêmito da alva vindoura espreme-se em meio às batidas quietas da pouquidão dos corações vagantes, pulsantes como eu, imersos na própria solidão e ensimesmados no mesmo cismar. Corações que olham em volta, silentes que clamam por alguém que esperançam avistar ao virar duma esquina, num feixe de luz duma janela, perdidos na mesma massa amorfa que eles, algures na noite.

Cabisbaixos entre uma vida que anseiam e o jeito que sempre foi, míngua-lhes a fé no porvir, esmorecida por dúvidas, calejada por rusgas, dessemelhada de tudo alheio, disso que ri, que regozija, que frui, que flui. Tudo o que se lhes não é. Entretanto, entre si, entrementes, se vive mentira, aparências desejadas, profecias mal cumpridas, à procura insana e eternamente estéril, externamente incólume, internamente estrépito, do amor que se precisa — alucina-se — algures na noite.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Assim, ele foi perdendo contato com tudo e todos, primeiro com os colegas a quem sorria, depois com os amigos com quem sorria, e por fim com a família que já não lhe sorria. E os dias foram passando (com as suas devidas noites em claro, no escuro), e ele mal dormia, mal comia, mal vivia, mal sonhava. Estava cada vez mais sozinho e com mais medo. Tinha perdido a noção de tempo há alguns dias, ou talvez fosse mais, já que dia e noite indiferiam pra ele, tanto como as pessoas. E ele atravessava esses dias e essas noites trancado no quarto, assistindo em silêncio aos mesmos filmes que antes costumava assistir no sofá, e mergulhando nos mesmos pensamentos que sempre o atormentaram, mas agora sem conseguir mais cair naquelas sensações de outrora em que procurava cair pra dissolver os medos, porque estes eram da mesma estranheza que agora tomava conta dele, crescendo das suas costas, acrescendo mais um peso ao fardo já tão duro que ele trazia.