sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

ALGURES NA NOITE

Entre a escuridão da rua e as casas esborratadas de luz, vagueio, fundido à paisagem, indistinto por fora, indiferente por dentro. O frêmito da alva vindoura espreme-se em meio às batidas quietas da pouquidão dos corações vagantes, pulsantes como eu, imersos na própria solidão e ensimesmados no mesmo cismar. Corações que olham em volta, silentes que clamam por alguém que esperançam avistar ao virar duma esquina, num feixe de luz duma janela, perdidos na mesma massa amorfa que eles, algures na noite.

Cabisbaixos entre uma vida que anseiam e o jeito que sempre foi, míngua-lhes a fé no porvir, esmorecida por dúvidas, calejada por rusgas, dessemelhada de tudo alheio, disso que ri, que regozija, que frui, que flui. Tudo o que se lhes não é. Entretanto, entre si, entrementes, se vive mentira, aparências desejadas, profecias mal cumpridas, à procura insana e eternamente estéril, externamente incólume, internamente estrépito, do amor que se precisa — alucina-se — algures na noite.

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