quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

AS MEMÓRIAS

Tinha a espessura de um dedo, e não devia pesar mais do que um, se se arrancassem dedos para pesar. Dedos, decerto não o percorreram tantas vezes quantas poderiam, a julgar pela maioria das páginas, que estava em branco, ou em amarelado, que era a cor de que o tempo se encarregara de as tingir. Naquele curto intervalo físico entre capa e contracapa, compactava-se um infinito pessoal: quantos segredos se encerravam, que histórias se eternizavam, quais amores narrados, que demônios exorcizados. Um universo microfilmado entre cartão e cartão. E esquecido, ocultado e inelutavelmente perdido por detrás do indecifrável código das suas palavras desconhecidas. Descartado mais uma vez, a derradeira, levou consigo para as trevas escusas o que outrora foi o tudo de alguém.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

EU NÃO SEI

Eu não sei ter-te, não sei entender-te. Não sei ver-te como queres, como quero, como preciso para saber-te. Não sei ler-te nos detalhes que se acabrunham, pelo que não sei escrever-te, quando tantos pequenos fragmentos de ti me inundam. Eu não sei dizer-te como cem ideias, dentro de mim, te procuram.

sábado, 7 de novembro de 2015

Tu, mais que ninguém, sabes quão rápido o tempo pode mudar.

sábado, 25 de julho de 2015

OLÁ DE NOVO

Por muitas terras e muitas gentes atravesso pra aqui vir deixar uma última oferta fúnebre e falar, inutilmente, a cinzas mudas. Porque a dor me impede de silenciar, porque te foste embora, porque já te tinhas ido, porque não te pude abraçar uma derradeira vez. Porque antes que eu pensasse em dizer adeus, bem antes, já não eras. Quando de mim foste tolhido, não por vontade, não por merecimento, pouco restava a dizer. Mas o suficiente pra entalar assim tão dolorosamente na garganta, que tudo em mim dói. E, nestas palavras das quais nunca hás de saber, peço que aceites a mísera oferta duma lembrança final, que se perpetuará em cada pensamento meu. E que, na eternidade que era pra ter sido nossa, este adeus se torne um olá de novo.

terça-feira, 16 de junho de 2015

O MUNDO NAS COSTAS

Outrora, havia trutas de arroio nos regatos das montanhas. Dava pra vê-las paradas na correnteza ambarina, onde as bordas brancas das barbatanas se destoucavam brandamente no fluxo. Cheiravam a musgo na mão. Reluzentes, musculosas e envergantes. Nas costas, havia padrões vermiculares que eram mapas-múndi em formação. Mapas e labirintos. De algo que não dava pra restituir. Que não dava pra ajeitar mais. Nas azinhagas profundas em que viviam, tudo era mais antigo que o homem, e sussurrava mistério.

terça-feira, 17 de março de 2015

O PAI, O FILHO, O ESPÍRITO SANTO

Ele voltou a mim. Uma vez, em sonho. Crescera, tinha talvez a idade que teria se tivesse. Era um menino. Um menino lindo. O meu menino. Sentado no banco de trás do carro, ele olhava para fora da janela, parecendo nem dar por mim. Só o vi pelo espelho retrovisor. Não tive coragem de virar para o encarar. Apesar de que não parecia trazer sentimento de vingança contra quem lhe negou a possibilidade de conhecer o mundo, tampouco parecia entusiasmado em conhecer o seu criador. Mas às vezes penso que ele sempre conheceu.

Não sabia o que fazer, não me mexi. Talvez se ele não reparasse em mim, poderia continuar a olhar para ele, que tinha os olhos voltados para o vidro. Teria ele ideia do que se passara? Haveria como pedir perdão por um pecado tão antigo? Teria ele tido tempo de formar um espírito perdoador antes do seu martírio? Teria ele lugar dentre os santos por isso? Não sabia o que dizer, não lhe falei. Atônito, olhava-o. Amava-o. Sempre o amei. Ele foi o meu único milagre, a minha multiplicação. O senhor que o deu e o senhor que o tirou, bendito seja. Queria que ele soubesse, mas como? Ele foi a expressão mais intensa do meu amor destrutivo, em todos os sentidos possíveis, e nunca soube. Ou será que soube?

E, talvez pelo meu silêncio, foi ele quem falou. A sua voz era mais grave do que poderia ser, e temi. Tácito, ouvi a sua sentença. Imperioso, plácido, condenava-me em palavras lentas, ainda sem voltar a vista para mim, a uma pena terrível. O meu juízo final. Eu, que o condenara, agora era o seu réu. Não me restou na memória, após desperto, o que continham as suas palavras. Mas hoje tenho a plena certeza de que tudo se cumpriu.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Não há mais diretivas
Além de dor e peso.
Nada, só expectativas:
Colapsos em progresso.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

SOBRE MEMÓRIAS FUTURAS

Vou lembrar ainda que te esqueças, e quererei quando desistires, e ligarei se não me atenderes, e hei de casar contigo porque nunca te pedi a mão, e quando não posares mais, é então que te farei o retrato. Porque faz mal buscar: é melhor deixar o acaso encontrar o jeito que lhe aprouver  porque, no fim, é o que ele há de fazer. Somos filhos de mundos distintos, de memória que se apaga e se redesenha distraidamente da mesma forma. E a vida te há de levar, e a morte a mim, e os dias, um dia, serão anos. E depois de te esqueceres, qualquer coisinha te lembrará, e doerá, e assim é que terá valido a pena. Porque o maior sonho é sempre a sombra do maior pesadelo. Porque dor e júbilo sempre tiveram o mesmo sabor para nós dois.

domingo, 25 de janeiro de 2015

DE FALHAS E CULPADOS

Eu creio que te falhei.
Sei que não te suficiei,
Mas não sabes o quanto tentei
Amar-te do meu jeito...
Estou vazio desde que partiste,
À procura de como continuar.
Busco-te em todo mundo
Pra ver onde foi que demos errado.

E não há ninguém pra apontar,
Não há ninguém pra culpar,
Não há ninguém com quem falar,
Não há ninguém que compre a nossa inocência,
Nem ninguém com quem a barganhar.

Pensei que conseguiríamos,
Mas sei que não posso mudar o teu jeito.
Deixo-te pois à tua dor,
Pra mostrar que tu és a beleza que possuis,
Se ao menos nisso te deixasses crer.
Crê que nós nascemos inocentes
E, crê-me, ainda somos inocentes.

É fácil:
Todos falhamos.
Mas
Isso importa?