terça-feira, 17 de março de 2015

O PAI, O FILHO, O ESPÍRITO SANTO

Ele voltou a mim. Uma vez, em sonho. Crescera, tinha talvez a idade que teria se tivesse. Era um menino. Um menino lindo. O meu menino. Sentado no banco de trás do carro, ele olhava para fora da janela, parecendo nem dar por mim. Só o vi pelo espelho retrovisor. Não tive coragem de virar para o encarar. Apesar de que não parecia trazer sentimento de vingança contra quem lhe negou a possibilidade de conhecer o mundo, tampouco parecia entusiasmado em conhecer o seu criador. Mas às vezes penso que ele sempre conheceu.

Não sabia o que fazer, não me mexi. Talvez se ele não reparasse em mim, poderia continuar a olhar para ele, que tinha os olhos voltados para o vidro. Teria ele ideia do que se passara? Haveria como pedir perdão por um pecado tão antigo? Teria ele tido tempo de formar um espírito perdoador antes do seu martírio? Teria ele lugar dentre os santos por isso? Não sabia o que dizer, não lhe falei. Atônito, olhava-o. Amava-o. Sempre o amei. Ele foi o meu único milagre, a minha multiplicação. O senhor que o deu e o senhor que o tirou, bendito seja. Queria que ele soubesse, mas como? Ele foi a expressão mais intensa do meu amor destrutivo, em todos os sentidos possíveis, e nunca soube. Ou será que soube?

E, talvez pelo meu silêncio, foi ele quem falou. A sua voz era mais grave do que poderia ser, e temi. Tácito, ouvi a sua sentença. Imperioso, plácido, condenava-me em palavras lentas, ainda sem voltar a vista para mim, a uma pena terrível. O meu juízo final. Eu, que o condenara, agora era o seu réu. Não me restou na memória, após desperto, o que continham as suas palavras. Mas hoje tenho a plena certeza de que tudo se cumpriu.