quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

AS MEMÓRIAS

Tinha a espessura de um dedo, e não devia pesar mais do que um, se se arrancassem dedos para pesar. Dedos, decerto não o percorreram tantas vezes quantas poderiam, a julgar pela maioria das páginas, que estava em branco, ou em amarelado, que era a cor de que o tempo se encarregara de as tingir. Naquele curto intervalo físico entre capa e contracapa, compactava-se um infinito pessoal: quantos segredos se encerravam, que histórias se eternizavam, quais amores narrados, que demônios exorcizados. Um universo microfilmado entre cartão e cartão. E esquecido, ocultado e inelutavelmente perdido por detrás do indecifrável código das suas palavras desconhecidas. Descartado mais uma vez, a derradeira, levou consigo para as trevas escusas o que outrora foi o tudo de alguém.